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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira
 
 

 

VIDA, MORTE E PRÁTICA CLÍNICA

Simone Aziz

Trabalho apresentado no sinpósio Homenagem a Wilhelm Reich
FORUM: Progressos na Clínica Reichiana
CeReich/UERJ dez/97

© 1997 - Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/vida-morte.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.

A idéia do tema desse trabalho, surgiu num momento da minha vida em que eu escutava muitos colegas reclamando, queixando-se das dificuldades de ser terapeuta. Uns trabalhavam com outras profissões e o atendimento clínico estava como segunda opção, outros pensavam em procurar diferentes formas de afirmar-se no mercado de trabalho, já que, como terapeutas estavam frustrados com as dificuldades.

Eu concordava com todos eles, pois atualmente, para se firmar como psicoterapeuta no Brasil está realmente muito difícil; seja pelas dificuldades financeiras que o país atravessa, seja pelo avanço da tecnologia que, de certa forma, esvazia as relações humanas (ex.: fazer atendimento psicoterápico via Internet); mas eu me deparava com uma questão chave: Se eu não for psicóloga/psicoterapeuta, o que vou fazer? Nada me entusiasmava, eu não conseguia, me imaginar fazendo outra coisa.

Foi então que comecei a mergulhar mais fundo nos questionamentos em relação aos possíveis obstáculos de ser terapeuta, e resolvi me lançar em busca de uma identidade cada vez mais clara dessa função.

Este trabalho, acredito, esteja sendo uma das formas de elaborar a angústia que vai aparecendo, ao me deparar com uma ou outra dificuldade. Seja diante do mercado de trabalho que, como já falei, não é nada estimulante; seja diante dos pacientes, onde em certos momentos nos vemos diante de um grande ponto de interrogação: O que fazer?

Ao pensar na escolha do tema, as palavras VIDA e MORTE me acompanhavam todo o tempo, eu percebi que tinha que incluí-las, mas ainda não sabia bem porque. À medida que ia lendo uma ou outra coisa, fui percebendo que na clínica convivemos o tempo todo com essa dialética VIDA/MORTE. Já dizia um dos meus professores que, o que fazemos na clínica, é auxiliar os pacientes a uma mudança nas suas percepções (seja de si, ou do mundo ao seu redor); eu acrescentaria que para uma modificação na percepção é necessário a morte da antiga, para o nascimento da nova.

A própria idealização do trabalho, acredito, tenha sido uma opção pela vida, pois em determinado momento, minha angústia era tal, que poderia me levar à estagnação enquanto profissional e talvez à desistência por completo de continuar ocupando esse lugar.

Antes de começar a pesquisar a visão Reichiana de VIDA e MORTE, resolvi consultar num dicionário o significado dessas duas palavras e eis que lá estava:

VIDA: Estado de incessante atividade funcional, vitalidade, animação, atividade.   MORTE: Ato de morrer, fim da vida. A definição do Aurélio só veio confirmar o conceito de vida para Reich que é um fenômeno baseado fundamentalmente em um mecanismo de CONTRAÇÃO / EXPANSÃO, ou seja, de PULSAÇÃO, que o diferencia do não vivo. Vida é movimento, Morte é estagnação.

Para um autor chamado Mishara a morte teria três dimensões: A morte psicológica, a morte social e a morte física.

Eu diria que as três dimensões estão intimamente relacionadas, a separação é apenas didática, uma poderia levar à outra. Quando o organismo está encouraçado, menos pulsante, poderíamos dizer que está com tendência para a morte.

Reich nos diz que: "A saúde se caracteriza por uma regulação econômica sexual da energia e pela plenitude dessa pulsação em todos os órgãos. Quanto maior a capacidade de pulsação, maior capacidade de absorção energética do indivíduo e portanto maior capacidade de vida a nível tanto de qualidade, quanto de quantidade."

Reich sempre acreditou no potencial para a vida de todo ser humano, a própria formação do caráter é feita em direção à vida, ou seja, naquele momento é a opção considerada mais saudável pelo sujeito.

"A tendência destrutiva cravada no caráter não é senão a cólera que o indivíduo sente por causa da sua frustração na vida e da sua falta de satisfação sexual."

"Uma criatura viva desenvolve um impulso destrutivo quando quer destruir uma fonte de perigo. Nesse caso, a destruição ou morte do objeto é a meta biologicamente determinada. O motivo original não é o prazer da destruição. De fato a destruição serve à "pulsão de vida" e é uma tentativa de evitar a angústia e de preservar o ego na sua totalidade. Destruo uma situação perigosa porque quero viver e não quero ter nenhuma angústia. Em suma, o impulso de destruição serve a um desejo biológico de viver."

Mas se vida é movimento e morte estagnação, então a cronificação das defesas seria uma diminuição do nosso potencial para a vida, uma rigidez que nos impomos que nos distância da vida vegetativa, natural, pulsátil.

No livro Análise do Caráter ele nos diz: "Ficamos cada vez mais espantados com a vida dupla que as pessoas são forçadas a ter.

O comportamento superficial que varia de acordo com a posição e classe social, provou ser uma formação artificial; está em conflito permanente com a natureza verdadeira, direta, vegetativamente determinada, que, muitas vezes, mal se pode esconder..."

"Em termos de análise do caráter, a diferença entre ritmo sexual vivo e atração calculada, entre dignidade natural e sem afetação e dignidade fingida, entre a fidelidade que nasce da satisfação sexual e a fidelidade que nasce do receio e da consciência."

Ou seja, a diferença entre fluxo e estagnação, entre Vida e Morte.

"A vida vegetativa é inerentemente produtiva e dotada de infinitas possibilidades de desenvolvimento."

Em relação à Pulsão de Morte da psicanálise que embasaria o conceito de reação terapêutica negativa, Reich afirma: "A reação terapêutica negativa do paciente mostrou depois que era o resultado da inabilidade teórica e técnica do analista para estabelecer no paciente a potência orgástica; em outras palavras, da sua inabilidade para tratar da angústia de prazer do paciente."

Aqui, Reich nos fala de inabilidade do analista. E o que seria um analista ou terapeuta hábil? Ralph Greenson nos diz que: "O que vai acontecendo dentro de sua própria mente acaba sendo o instrumento de que dispõe o psicanalista para compreender a mente de outro ser humano. A aptidão de um psicanalista está inextricavelmente ligada à sua própria mente inconsciente e à proporção em que esse inconsciente se torna acessível para ser utilizado pelo seu ego consciente." Reich nos fala de CONTATO, que seria uma percepção clara e acurada de si mesmo, das próprias sensações, sentimentos e também uma boa percepção do seu paciente.

Greenson utiliza o conceito de empatia, que significa compartilhar, vivenciar os sentimentos de outro ser humano.

Enfim, o lugar do terapeuta não é fixo, estático, lidamos com o abstrato, não palpável. Nos deparamos com uma função determinada a posteriori, no processo. Não temos uma posição pré-definida nesta relação, necessitamos estabelecer um contato suficientemente bom com nosso paciente, empatizar, sermos bastante plásticos, fluidos, desencouraçados, para podermos estar onde seja necessário ao paciente.

Ser terapeuta é estar sempre diante do novo, do inesperado, e é bom que seja assim, porque quando acharmos que tudo já foi visto por nós, provavelmente nos encouraçamos. Precisamos poder estar morrendo e nascendo a cada instante na clínica. Morte aqui, não mais entendida como estagnação, mas como mudança de lugar na relação.

Quando no início falei, que na prática clínica nos deparamos com a dialética da vida e da morte todo o tempo, podemos vê-la tanto do ponto de vista do terapeuta quanto do paciente.

Sanchez em seu livro "Consciência da Morte", nos fala da morte física: "No fundo é o ego que teme a morte e com justa razão. Diante da morte, o ego se reduz ao que sempre foi: nada. Porque a morte não é a negação da vida, mas sim a negação do ego. A vida se sustenta com a morte. A vida de nossos corpos se nutre com a morte de animais e plantas, do mesmo modo que estes se nutrem da nossa própria morte."

Eu diria, por outro lado, que podemos falar de morte em terapia enquanto morte de partes do caráter e morte de defesas do ego que estejam cronificadas, paralisando a vida que é fluxo.

E nós, enquanto terapeutas, por quantas mortes já passamos no nosso próprio processo terapêutico, para conseguirmos estar nessa função onde é necessário tanta vida, tanto movimento?

Para Reich toda a natureza estaria baseada no movimento de pulsação, que é o mecanismo regulador que permitiria tanto a formação, quanto a transformação de tudo o que é vivo, e o que existe fora do vivo a nível cósmico. E o que é transformação senão um processo de morte e vida? Quando a lagarta sofre a metamorfose, morre para se transformar numa linda borboleta.

O filósofo Heidegger nos fala que: "viver não é outra coisa que viver a própria morte. Desde que se nasce, já se é bastante velho para morrer."

Eu diria que a morte, vista como transformação é indispensável na vida, acrescentaria que ela poderia ser nossa aliada. Se fizéssemos da morte nossa aliada, talvez: Não reprimíssemos a expressão dos nossos afetos, negando-os, esperando algum tempo para tocar, acariciar, nos encontrar. Apreciássemos a beleza da flor, como se nunca mais pudéssemos vê-la novamente. Nos importássemos mais com o essencial do que com o superficial. Fizéssemos de cada ato um desafio de beber o máximo da vida a cada instante.

O trabalho terapêutico, poderíamos dizer, é a arte de traduzir as pequenas mortes do dia a dia, em uma linguagem a favor da vida. Morte aqui, não mais como encouraçamento, paralisação de fluxo, mas como transformação, tradução de sofrimento em possibilidades de prazer, potência.

Gostaria de finalizar com um poema de Ferreira Goulart.
 

Bibliografia

Autora

Simone Aziz  tel.: (021) 719-0159
Psicóloga formada pela UFF e terapeuta reichiana filiada ao CeReich. Desenvolve trabalho terapêutico em consultório particular e em instituição pública, individual e em grupo.

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