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Produzido por José Guilherme Oliveira
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Revolução Sexual Quae Sera Tamen

Liane Zink

© 1999 - Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/tamen.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.

Entre 1929 e 1933, Reich criou vários institutos com o propósito de formalizar canais de expressão e afirmação da sexualidade.

O Sexual Information and Research Society, a Sexual Reform Association e as Sexual Couseling Clinics estavam voltados para a questão do prazer da sociedade e seu papel na sociedade.

Reich tomava em consideração não só os aspectos biológicos e psicológicos do indivíduo, mas também seu contexto social e cultural. Sua meta ia além da psicoterapia: ele queria mudar as curando leis a sociedade.

A política muda as leis, não as pessoas. A psicoterapia muda as pessoas, não as leis. Os esforços libertários de Reich não conseguiram reduzir os sentimentos de ansiedade e culpa relacionados com à sexualidade, nem tampouco os esforços de tantos outros movimentos que a ele se seguiam, denunciando e combatendo a repressão sexual e seus desdobramentos, dos mais evidentes aos mais sutis.

Por que persiste o tabu da masturbação? Por que os homossexuais são tão perseguidos? Por que há tantos casos de abusos e incesto? Por que há um divórcio para cada três casamentos? Por que o amor assusta tanto?

Estas foram algumas questões trazidas por Dr.Michel Magnant no Sexto Congresso de Psicoterapia Corporal em Viena no ano retrasado.

Ao refletir a esse respeito, ao acompanhar os relatos da mídia, tenho a sensação de estar tendo os boletins do Sexpol, o grande movimento pela libertação da sexualidade humana empreendido por Reich em 1928.

Passados setenta anos, ao abrir o jornal (1), me deparo com um artigo descrevendo as atividades de um Centro que organiza oficinas de sexo seguro para mulheres: "(...) muitas mulheres abandonam os programas da oficina pressionadas pelos seus maridos. Homem não quer ver sua mulher discutindo sexo na ausência dele(...)"

É fato a moral contemporânea continua sendo uma moral repressora. A busca do prazer sexual continua sendo alvo de condenação. O sexo ainda se constitui em ameaça e a moral estigmatiza a sexualidade.

A tão famosa revolução não conseguiu atingir seu ponto culminante.Ela veio em ondas, ondas geradas pelos movimentos de libertação femininos que, a pílula anticoncepcional e o trabalho fora de casa, conseguiram às vezes sair do platô e atingir um pequeno pico para, logo em seguida cair no pântano da repressão sexual.

A revolução sexual feminina foi desencadeada pelo olhar masculino no contexto de uma cultura falocêntrica. Ao falar de sua sexualidade e de seu orgasmo, a mulher caiu na armadilha da cisão dissociativa entre o orgasmo clitoriano – que provocava nas mulheres um sentimento inadequado e infantilizado – e o orgasmo vaginal , o orgasmo da maturidade. Presa da censura mais uma vez, a mulher legitimou um obstáculo que a incapacidade de alcançar a integração tão desejada quando, afinal , o orgasmo é um só...

Revolução sexual, educação sexual política, artes , filosofia. Reich acreditou e se martirizou ao pensar na revolução em todas as áreas – principalmente na política, porque é no contexto da política que floresce o conceito de potência.

O ser natural deixou de existir e, portanto, o conceito de auto-regulação ficou depassé. O adulto afeta a criança antes do surgimento do desejo. O ambiente do adulto, hoje, stressa a criança mais que no passado.

Como poderia ser a vida se a pulsão não tivesse sido reprimida? Mais insidiosa que a repressão sexual é a repressão do contato real entre as pessoas, do contato amoroso. Numa sociedade onde impera o individualismo, a libido volta-se para a aquisição de bens.

Uma pesquisa sobre educação sexual nos dias de hoje, publicada por uma revista especializada (2) ,informa que as meninas começam a experimentar o sexo aos 13-14 anos assistindo um filme na televisão – experiência totalmente desprovida de erotismo e entrega. Ela ás vezes é virtual, via Internet.

Quais são os mitos contemporâneos da sexualidade, afinal? Aonde está a fonte da sexualidade de hoje? Na superexposição do sexo na mídia, na sua objetificação?

É preciso perguntar qual é a censura atual, se o proibido está no incesto e é ele que organiza a sociedade.

Longe de mim me contrapor à era do computador, mas há de se pensar que a revolução sexual ,quae sera tamen, provavelmente virá através dele, fria e distante como uma máquina: só apertar os botões.

Notas

(1 ) Folha de São Paulo,14 de março de 1997.

(2) QUAL?

A Autora

Liane Zink, Psicoterapeuta Corporal, é Presidente do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo, Diretora do Inst. Brasileiro de Biossíntese e Diretora Fundadora do Inst. Ágora-Centro de Estudo Neo-Reichiano.

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