O R G O N i zando

Psicoterapia Corporal
e Orgonomia 
desde Wilhelm Reich

Psicanálise Somática Orgonômica

Autor: NICOLAU MALUF JÚNIOR

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I

Uma questão que temos sempre presente na clínica e na formulação de uma teoria da clínica diz respeito à constituição e organização daquilo que podemos chamar de unidade bio-psíquica. Nessa perspectiva, como definimos "o que"constitui esse corpo e esse psiquismo é de importância fundamental. Se esse corpo que nos interessa é definido como hipo ou hiper-tônico, se tem um desenvolvimento comprometido do ponto de vista embriológico, se há o registro de um desenvolvimento neuro-muscular problemático e assim por diante. E também, se esse psiquismo é definido como mera auto-percepção, ou produto da organização de diferentes centros e conexões nervosas,ou ainda consequência de recalcamentos e depositário de conflitos inconscientes.

De certa forma, cada escola de orientação psico-corporal elege dois aspectos relativos aos dois domínios diferentes, vê a relação soma-psique de acordo com esses princípios e desenvolve uma metodologia clínica própria. Todos os que estão familiarizados com os trabalhos de Reich sabem da ênfase que coloca na questão do núcleo somático da neurose e da importância do manejo do caráter como forma organizada dos modos de defesa. Num momento posterior de seu trabalho, Reich afirma que é secundário o manejo dos conteúdos psíquicos, a meta é a eliminação da estase energética, e isso se daria através basicamente do lidar com as dinâmicas corporais. Mas o mesmo Reich, no "A função do orgasmo", (Reich,1942,1975) só para citar um exemplo, diz que quando uma couraça muscular não cede, deve-se passar para a análise do caráter e vice-versa, observação que é frequentemente esquecida .

Embora a orgonoterapia tenha surgido da vegetoterapia e esta da análise do caráter, Reich não nos deixou uma metodologia que integrasse, de forma coerente, a análise do caráter e a orgonoterapia .Basta um pequeno exame para perceber...Estas seguem sendo metodologias paralelas, e como me ocupo desta questão já há muitos anos, tenho minhas próprias conclusões a respeito do "como" dessa integração. Este trabalho, embora não seja uma apresentação geral dessas conclusões, decorre desta preocupação, ou seja, o aperfeiçoamento cada vez maior do nosso instrumental teórico e clínico.

II

Nem sempre os males do "espírito" foram vistos como separados dos males do corpo, como sabemos. Essa é uma aquisição relativamente recente, se pensarmos em termos históricos, a partir de Descartes, inaugurando o corpo como realidade objetiva e conduzindo à separação entre corpo e mente.

Mas, "Existe, todavia, uma doença, descrita há mais de 4.000anos, e que parece não se curvar a todos os esforços diagnósticos e curativos da medicina: A histeria...aliás, é a histeria que vai dar surgimento a uma outra e revolucionária forma de pensar o sofrimento humano: a psicanálise"(Ávila,1997,pag.37)

A dicotomia mente-corpo entra em questão...Por outro lado, a posteriori, naquela que deveria ser uma disciplina que enfocaria especificamente o fenômeno somato-psíquico, sutilmente desenvolve-se uma nova inversão: a noção de um psiquismo que DETERMINA acontecimentos no somático, o corpo recebendo agora o status de "acessório"(Maluf Jr. 1997)

Num artigo de 1921, "A energia das pulsões " Reich(1921) define a natureza da pulsão como sendo a expressão motora do prazer experimentado e com isso nos lembra mais uma vez que é a representação da pulsão que está no psiquismo, não sua energia. Uma idéia não é ativa em si mesma, é necessário uma catexis de energia ligada à ela. Na neurose, portanto, o recalcamento tem como correspondente processos somáticos de desvio e interrupção da expressão de impulsos ou excitação corporal .O recalcamento não se dá sem a existência de mecanismos corporais com função semelhante. Não é um fenômeno meramente psíquico. Por sua vez, a couraça muscular impede não só as correntes vegetativas, mas também uma "excitabilidade vegetativa", que é característica da energia orgone em movimento, impedimento esse que afeta especificamente as funções auto-perceptivas.

Sabemos que, nas análises, a simples interpretação de conteúdo, sem a análise das resistências, leva à mera intelectualização. Por outro lado, encontramos pacientes que, estimulados, "emocionam-se" fàcilmente, de uma maneira catártica e repetitiva, onde a pseudo- expressão emocional é substitutiva e está a serviço das defesas.Voltemos à noção de caráter e à idéia de somatória organizada de modos de defesa. A especificação "organizada" aponta aqui para o fato de que o caráter tem um funcionamento autônomo, que vai além da simples somatória das resistências, e que tem a capacidade de manter o equilíbrio neurótico, economicamente falando, mesmo quando essas resistências, corretamente reconhecidas, são atacadas de forma isolada. Por sua vez, somaticamente, de nada vale reconhecer a existência, a localização e a função de uma couraça muscular, segundo uma concepção Reichiana ou qualquer outra, se a sua função restritiva como um todo não for abordada.

À questão, então, do tipo de referencial que usamos na definição da natureza da constituição da dimensão psíquica e do somático, e à questão do tipo de relação existente entre esse soma e esta psique, segue-se a consideração de um funcionamento que é de conjunto, e, ainda, da relação que a parte guarda com o todo.

III

Como orgonomista "de carteirinha", sempre admirei Freud. E, creio eu, pelos mesmos motivos que mantiveram esta admiração em Reich, embora esta não o impedisse de questioná-lo (a Freud) e criticá-lo. Da mesma forma, Reich sempre deixou claro como a orgonomia nasceu do estudo da vida emocional, numa ótica freudiana, e essa vinculação permanece válida.

Mas quero deixar claro desde logo que, especialmente com relação à clínica, considero o instrumental psicanalítico, quando isolado, extremamente menor e insuficiente, quando comparado ao desenvolvimento da orgonoterapia e orgonomia .Não que esta seja, em si mesma, "melhor", "mais verdadeira', mas simplesmente porque, pela suas próprias características, leva à inter-relação e amplia o leque de possibilidades (Maluf Jr.,1997).

O termo "psicanálise", no título deste trabalho, advém do fato de ser parte importante no seu desenvolvimento a utilização das premissas freudianas . E, nesse sentido, acredito estar de acordo com a definição de Mezan de que, " psicanalíticas são todas as escolas de pensamento que adotam como verdadeira a hipótese de inconsciente como formulada por Freud" (Mezan, 1996, pag348).Portanto, é a aceitação da hipótese e sua utilização que são questões centrais e definitivas, e não um "setting" particular e a concomitante utilização EXCLUSIVA do verbal como instrumento específico.

Esta explicação é necessária porque mesmo entre os reichianos mais ortodoxos existem discussões à respeito de quanto este referencial continuava presente por volta do período orgonômico, e alguns entendem que não. Outros, como na chamada" escola européia" afirmam a importância de uma intervenção analógica e não interpretativa. Meu ponto de vista é que nunca foi abandonado por Reich, seus escritos levando muitas vezes a confundir a explicitação e ênfase na pontuação dos fenômenos orgonóticos, com ausência de interesse nos relacionais e transferenciais. Myron Sharaff, colaborador e autor da mais completa biografia sobre Reich, e que foi também seu paciente, diz que este, no período citado, apesar de cansado da psicanálise, nunca deixou de prestar considerável atenção aos traços de caráter. Sharaff relata uma ocasião em que, após algumas interpretações, Reich teria dito:" Você vê, este trabalho envolve muito mais do que "espremer" músculos. Nos não somos contra a boa psicanálise."(Sharaf,1993,pag.314) Mas, na visão de Sharaff, a impaciência então existente em Reich com as técnicas verbais influía em sua capacidade como clínico.

Entre Reichianos não orgonomistas, a noção de sexualidade psíquica tem menos destaque, havendo uma ênfase maior em outros referenciais que vão orientar o trabalho clínico desenvolvido.

Mas o meu objetivo não é o de retornar ou recuperar qualquer suposto desvio, e sim o de apresentar uma alternativa .Um novo caminho, com novas possibilidades .Não substitui outros, acrescenta, especifica, como é típico quando da utilização do princípio orgonômico-funcional. Esse caminho considera, na orgonoterapia, a diferença entre demanda de cura e desejo dela( desejo de não sair da neurose), a ótica do inconsciente, a dinâmica da transferência, a dimensão relacional do adoecer, e a existência de um sujeito .Mas essa consideração se dá no campo das premissas Reichianas, ou seja, a base física e material da vida pulsional, a noção de unidade bio-psíquica, o referencial orgonômico, etc...

Como eixo central desse trabalho, e enfatizando a dimensão da neurose, deixando, por enquanto, outras categorias de lado, está a questão: É a retirada do recalque PRIORITARIAMENTE um processo de conscientização, que levaria à uma mudança nos modos de mentalização? É de um processo meramente psíquico a que Freud faz referência quando diz; "Ali onde estava o id, estará o ego"?

Não! A experiência clínica mostra que, além da presença dos afetos, essencial é a VIVÊNCIA das excitações corporais correspondentes, uma experiência CORPORAL específica, um SENTIR-VIVER !Sem isso, é mera intelectualização. O paciente não está fundamentalmente impedido de SABER, está impedido de SENTIR e saber! Uma vez isso alcançado, a mentalização alcança outro patamar...

A orgonoterapia entende a relação Soma-psique de uma maneira particular, como componentes de uma Unidade funcional. Nessa concepção, Soma e psique são variações de um princípio original que guardam entre si uma relação ao mesmo tempo antagônica e complementar. Essa postulação traz como conseqüência:

  1. Existe necessariamente um denominador comum entre soma e psique.
  2. Essa relação tem essa característica, a de antagonismo-complementariedade.
  3. Qualquer intervenção terapêutica, quando se dá de forma coerente com essa dinâmica, necessariamente atua sobre esses dois domínios, mesmo quando a ênfase da intervenção é sobre um ou outro em especial.

A vegetoterapia tem origem quando Reich, ao aprofundar o trabalho nas resistências de caráter, constata a existência das correntes vegetativas e da excitação pré-orgástica, e suas ansiedades específicas.Assim começa a compreensão da ligação Soma - psique e aqui o conceito de genitalidade ganha sua base de confirmação fisiológica e biológica.

Assim, uma intervenção de base caractero-analítica definida, gera não só um fenômeno psíquico(retirada do recalque, qualidade da transferência, alteração dos modos de resistência), mas também um acontecimento somático( correntes plasmáticas, reações neuro-vegetativas, excitações corporais localizadas, et.), de acordo com o conhecido sobre o funcionamento orgonômico no vivo. É necessário repetir, para se ter clareza, que não é QUALQUER intervenção, no psiquismo ou no somático, que trará repercussões também no domínio paralelo, e sim aquelas intervenções que se dão de acordo com o funcionalismo energético descrito por Reich.

A psicanálise somática orgonômica é apenas uma forma especial de aplicação das noções da análise do caráter, agregando-se à ela o saber da orgonomia, fenômenos como: fluxos e excitação plasmática, direção de fluxo, luminação etc..., um saber que era inexistente à época da formulação dos princípios da análise do caráter. Essa junção, por sua vez, é feita de acordo com a noção de organização sistêmica de um ponto de vista Reichiano, isto é, oposição complementaridade, qualidade psíquica- quantidade somática, alcance e predomínio temporário de um sub-sistema com relação ao conjunto, etc...

Esta psicanálise somática, centrada na transferência e na análise do caráter, transcende a condição do lidar com idéias, representações e conflitos inconscientes. Faz isso colocando ÊNFASE no desenvolvimento e percepção das excitações corporais decorrentes do desligamento de catexia vinculada à idéias, e da vivência das correntes vegetativas surgidas a partir da diminuição da função defesa do caráter, numa espécie de circuito auto-alimentado. A mesma intervenção pode, dependendo do momento vigente no processo, existir como interpretação de resistência de caráter ao mesmo tempo em que afeta a função defesa somaticamente atuante, ou reintegrar conteúdos anteriormente recalcados enquanto aumenta a capacidade de vivência das correntes plasmáticas.

A atividade clínica do "prestar atenção à si mesmo", do contato, do discernir e definir as correntes vegetativas, é acompanhada, nos processos associativos ou quando a transferência está em foco, de um fluxo de fantasias e vivências emocionais, fluxo esse que é maior, mais intenso, mais organizado e mais abrangente do que quando é empregado o método analítico ou a abordagem biofísica em separado ou com um tipo diferente de justaposição.

É o desligamento e o fluir de novo de um certo "quantum" de energia das idéias sob pressão que permite a transformação da personalidade. Isso quer dizer não só novas cadeias associativas mas também um redirecionamento dessa energia .A condição de elaboração não é somente, portanto, a de uma conscientização de afetos, impulsos e desejos, mas implica também numa capacidade aumentada do lidar com as excitações corporais! Os processos de transformação de formas de mentalização, são, também, de transformação de capacidade excitativa. E nesse sentido, essa capacidade, a de lidar com excitações, deixa de ser um problema relativo unicamente ao campo das psicoses ou das condições fronteiriças, para ter relevância geral.

A relação soma - psique enfocada desta forma dá especial atenção à idéia reichiana de que os primeiros registros mnésicos são registros de MOVIMENTO no plasma corporal( Reich, 1949, 1973, pag.92) e de como é similar às idéias de Groddeck, a noção de que é a educação e não A maturação QUE PROGRESSIVAMENTE ELIMINA DO ADULTO A CAPACIDADE DE CONTATO VEGETATIVO (Groddeck, 1992, pag.3) Assim, podemos explicitar bem a diferença entre um ego maduro que é capaz de lidar com intensidades sensórias sem se deixar engolfar, e a noção, mais comumente aceita, de capacidade egóica e SUPRESSÃO de intensidade e descarga de impulsos... A literatura psicanalítica está cheia de exemplos do segundo caso.

IV

O reconhecimento da existência das correntes vegetativas e sua importância para o esclarecimento e resolução de questões clínicas e teóricas continua a ser decisivo. .principalmente no que diz respeito às noções de ligação, sublimação e descarga. O fato de, no referencial Reichiano, lidarmos com a noção de uma natureza física, material, das excitações corporais, e o fato de sabermos que a noção de sexualidade psíquica não implica na de ENERGIA psíquica, é fundamental. O não discernimento dessa diferença criou um impasse que resultou na formulação de uma hipotética pulsão de morte, com consequências catastróficas para a clínica, como já examinado anteriormente por Reich.

Apenas como ilustração, já que neste trabalho procurei apontar para a possibilidade de utilização dos fenômenos orgonóticos durante o trabalho de análise, vamos utilizar um longo, belo e minucioso estudo de caso, publicado por Freud, o do "Homem dos Lobos". Neste, especial relevância é dada à um sonho ocorrido na infância, sonho este que deu origem à uma fobia infantil que, posteriormente, transformou-se em uma neurose obsessiva. Nele, o paciente vive a experiência de estar sendo olhado fixamente por lobos que estão postados sobre uma árvore, e que o olham através da janela do seu quarto. O paciente acordou em pânico. paralelamente, tem início a fobia.

As associações que encaminharam a interpretação do sonho levaram Freud a entender a IMOBILIDADE dos lobos no sonho como sendo relativa à movimento, uma distorção do que teria sido a observação, por parte do paciente e quando com cerca de dois anos e meio, da cena primária e dos movimentos durante a relação entre os pais. O pânico, por sua vez, é inicialmente entendido como uma espécie de rechaço de um desejo homossexual. (Obviamente, nesta narrativa que faço aqui, há uma redução ao extremo de uma exposição rica em detalhes e em complexidade.)

Um orgonomista poderia concluir: sim, a representação do movimento reconhecida na imobilidade dos lobos é importante, e sua relação com o desejo, (homossexual ou não) também.

Mas ele, o orgonomista, poderia reconhecer a presença das correntes vegetativas (representadas pela sua distorção, a imobilidade). É a presença da experiência corporal que dá inicio à fobia. Como o próprio Freud menciona, "Tenho observado que, com frequência, a atenção das crianças é mais facilmente captada pelo movimento do que pelas formas em repouso, e que as crianças baseiam -se nesses movimentos para fazer associações que nós, os adultos, não estabelecemos." (Freud, 1981, pag.1990-) Não é difícil ver aqui a relação existente entre a percepção dos movimentos no plasma corporal, como descreveu Reich, quando a criança ainda mantém intacta essa capacidade, e essa capacidade associativa nas crianças.

Desse modo, e de forma resumida é claro, é possível pensar-se na vinculação entre o sonho dos lobos, as sensações de MOVIMENTO (correntes vegetativas) no corpo, e o estabelecimento da patologia. Não é possível deixar de imaginar que curso seguiria o trabalho clínico com o uso da abordagem somática, dado o fato que a fobia infantil deu origem a uma neurose obsessiva .Essa perspectiva, a de imaginar como seria o curso do processo, torna-se possível pelo fato de Freud, como é habitual, nos fornecer um rico e detalhado texto, num estilo hábil, entusiasmado e corajoso. Podemos assim ter uma idéia bastante precisa das dificuldades que enfrentou naquilo que foi definido como uma neurose rebelde .Mas podemos também, examinando este relato, reafirmar a importância da utilização preferencial do modelo econômico, à maneira Reichiana, quando, neste mesmo relato, Freud descreve a modificação de um sintoma somático( prisão de ventre crônica) `a partir de uma intervenção que leva em consideração uma característica histérica do paciente.( Pag1982)Esse e outros momentos, em que uma intervenção caractero-analítica seria não só possível, como necessária, e de que uma intervenção biofísica era imprescindível, nos leva a entender as repetidas dificuldades e a estagnação no processo clínico deste paciente de uma maneira diferente do que, por exemplo, encontramos em Sherrine N. Borges, ao comentar o mesmo estudo de caso: "...Ao contrário do que se esperava, a interpretação das recordações mais antigas, as da cena primária, não devolvia ao eu nenhum entendimento que o movesse a ser racionalmente razoável, mantendo-se intratável e não sendo mais o aliado esperado. Se continuava a ser verdadeiro que o eu podia responder adequadamente a alguma das exigências que a realidade da experiência analítica lhe impunha, algo tinha que ser revisto em toda a estrutura do psiquismo. Esse impasse só seria superado com a Segunda teoria pulsional quando o conflito psíquico aparecerá sob a forma de um novo dualismo pulsional, entre as pulsões de vida e de morte..." (Borges, 1995, pag122-123)

Mas que "paixão" é essa pelo conceito de pulsão de morte? Como, se no próprio texto do "homem dos lobos'', o entendimento fundamental de Freud, e o que ele vai enfatizar ao final diz respeito ao...narcisismo! Freud entende que a causa da enfermidade foi uma "'frustração"narcísica! O que nos remete novamente para a idéia da "imobilidade" e sua relação com a percepção das correntes vegetativas e à uma intolerância com respeito isso. A verdadeira questão é: por que as intensidades corporais são vividas como ameaçadoras nesta criança...

V

Dissemos antes que existe uma vinculação entre processos somáticos e psíquicos., e que uma intervenção feita de forma coerente com a estrutura produz efeito nos dois domínios(soma-psique.).Assim, uma abordagem baseada em noções de desenvolvimento psico-sexual e da organização do aparelho psíquico, mas também em noções de economia energética e biofísica orgônica, amplia seu potencial de ação pelo simples fato de poder reconhecer a natureza e a organização das produções somáticas advindas das intervenções no psiquismo( a excitabilidade vegetativa). Desta forma, percebe-se que, no manejo da transferência, toda estruturação defensiva, de qualquer tipo ou ordem, origina-se à partir de um núcleo básico, somático, o temor `a vivência orgástica, que psiquicamente manifesta-se como evitação de intensidades corporais ou de sua percepção, quando existente.

Na psicanálise somática de base orgonômica, a intervenção considera:

  1. Conteúdos específicos e defesas específicas.
  2. O caráter como concatenação de forças defensivas.
  3. Aumento e direcionamento da excitabilidade vegetativa durante o trabalho analítico.
  4. O desenvolvimento das correntes vegetativas e a ansiedade orgástica, que está na base de toda função defensiva

A utilização da análise do caráter que dá ênfase à sua função (a do caráter), que é a de evitar a vivência ou a percepção das intensidades corporais, como é característico da psicanálise somática orgonômica, cria várias possibilidades:

  1. A de uma intervenção direta na condição somática através do verbal, por ex., mudança de tonus muscular acompanhando a abordagem de resistências, interpretação e fluxos vegetativos...
  2. Em função de uma ênfase na auto- percepção ao longo do processo e do aumento da excitabilidade vegetativa, esta abordagem tem uma ação altamente organizadora das funções do ego e é especialmente útil ao lidar-se com condições fronteiriças, sendo uma forma de intervenção não corporal no segmento ocular.
  3. Pelos mesmos motivos, é eficaz nas fobias em geral e particularmente na chamada síndrome do pânico, onde a avaliação clínica frequentemente confunde a ansiedade orgástica com a ansiedade de depressão.

A designação de "Psicanálise Somática Orgonômica" aponta apenas para uma utilização específica de conceitos caractero-analíticos e orgonômicos, não sendo de modo algum uma tentativa de criação de uma nova "escola" ou algo assim.

Mas os princípios e a noção de organização que orientam sua utilização fazem dela algo diferente da psicanálise, da psicossomática psicanalítica, de psicoterapias corporais de base analítica etc. Também da análise do caráter e da orgonoterapia, se vistos isoladamente.

A utilização precisa de um referencial econômico energético, que prioriza a forma (função) em relação ao conteúdo, mas não elimina sua importância, nos dá suporte para lidar com o âmago das funções defensivas, em termos caracteriais ou somáticos, afastando a possibilidade de um psicologismo vazio ou a descarga motora que é defesa, não expressão.

"Se você entende duas coisas, o temor provocado pelo conhecimento da energia orgone e o medo de saber como realmente é ser como uma criança, então você penetrou dois dos maiores de todos segredos " - Reich

Referências Bibliográficas:

Reich,W(1975). A função do orgasmo. São Paulo: Brasiliense.

Ávila, Laslo A.(1997) A Alma, o Corpo e a Psicanálise. Em Psicologia, Ciência e profissão, n3.

Maluf jr, Nicolau j (1997).Orgonomia e Ciência Contemporânea. Arquivos Brasileiros de Psicologia.Vol.49, n.o2.UFRJ-IMAGO-CNPQ.

Reich, W. (1921-1955) The Energetics of Drives. Orgonomic Medicine, vol 1 n.01.

Mezan, R.(1996).Paradigmas e modelos na psicanálise Atual. Em Psicanálise Hoje, Petrópolis, Editora Vozes.

Sharaf, M.(1993) Fury on Earth. New York. St. Martin,s Press /Marek.

Reich, W.(1973). Ether, God and Devil. New York, Farrar, Straus and Giroux.

Groddeck, G.(1992). Estudos Psicanalíticos Sobre Psicossomática. São Paulo, Editora Perspectiva.

Freud, S.(1914-1981). O Homem dos Lobos. Obras Completas, Tomo II, Espanha, Editorial Biblioteca Nueva.

Borges, Sherrine N.(1995). Metamorfoses do Corpo. Rio de janeiro, Editora Fiocruz.

Biografia:

Nicolau Maluf Jr é pioneiro no estabelecimento da clínica Reichiana no Brasil, em especial segundo os parâmetros da Orgonomia. Ainda em São Paulo, começa a clinicar em 1975, e, a partir de 1980, já no Rio de Janeiro, coordena grupos de estudo e de formação. É membro fundador da "Escola da Clínica Somato-Psicanalítica, assim como membro fundador e coordenador científico da "Associação de Psicoterapia Corporal do Rio de Janeiro".

Endereço: Rua Getúlio das Neves n 16-casa 5- Jardim Botânico, Rio de Janeiro.Tel:5396561 .
E-mail: eneorgon@centroin.com.br

 

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