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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira
 
 

 

A orgonomia como uma prática científica

Luiz Carlos de O. Marinho

© 1997 - Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/orgocien.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.
 

Resumo

Neste artigo o autor discute alguns princípios e critérios aos quais a Orgonomia deve ser submetida para que possa ser inserida no conjunto das práticas científicas.

Abstract

In this paper the author discusses some principles and criteria which Orgonomy must obey to be considered a Science.

Conteúdo

"Quando Clerk-Maxell era criança ele tinha a mania de querer que lhe explicassem tudo, e quando as pessoas davam explicações vagas de qualquer fenômeno ele as interrompia, impacientemente, dizendo: - Sim, mas eu quero que você me diga a explicação exata disso"
William James (4)
Como todos sabem Reich foi um pensador profícuo que se aventurou por diversos campos do conhecimento, produzindo trabalhos originais e criativos. Todavia foi somente com a Orgonomia que ele propôs algo inteiramente novo, criando e definindo um campo de saber até então inexistente. Nesse sentido me parece que se é possível dizer que existe um campo reichiano por excelência este campo é a Orgonomia. Com a Orgonomia Reich esperava ser capaz de explicar desde o surgimento e funcionamento da vida até o movimento das galáxias. É claro que um projeto deste porte não pode ser conduzido por meio de opiniões vagas ou por meio da articulação superficial de idéias confusas e pouco consistentes.

Reich estava plenamente consciente das exigências conceituais e metodológicas impostas pela Orgonomia, e por isso mesmo abominava as opiniões irrefletidas e inconseqüentes, bem como as posturas metafísicas, ideológicas e religiosas. Dizia ele que "o pensar correto é lento, profundamente enraizado; cresce organicamente como uma árvore. O pensar incorreto é precipitado, inorgânico, seguidor de modas; é lugar comum e efêmero" (4). Por estar imbuído de uma postura anti metafísica Reich acabou por conduzir suas pesquisas em Orgonomia segundo as propostas do Verificacionismo (1), corrente do pensamento científico muito em voga no início do século no eixo Viena-Berlim, e que se propunha justamente a escapar das afirmações vagas da metafísica, por meio de uma tentativa constante de verificar experimentalmente todas as proposições científicas. A atitude de cientista experimental cuidadoso com que Reich conduzia suas pesquisas, sempre preocupado com a quantificação dos experimentos e com a manutenção de registros detalhados para que eles pudessem ser replicados por quem se interessasse, demonstra o quanto ele foi influenciado pelo Verificacionismo.

Por tudo isso, desde Reich existe uma tendência para se inserir a Orgonomia no âmbito das práticas científicas, até mesmo para diferenciá-la das práticas místicas e esotéricas que se infiltraram no campo das terapias corporais. Aliás, como a Orgonomia pretende trabalhar com um certo tipo de energia, e como a palavra energia tornou-se um significante mágico utilizado com os mais diversos propósitos e significados, existe sempre o risco de que a Orgonomia seja associada às práticas mais bizarras que se possa imaginar.

Apesar disso não são poucos os que ainda se negam a discutir a inserção da Orgonomia no âmbito das práticas científicas. Alguns o fazem argumentando que se não existe um consenso sobre o que é Ciência esta é uma discussão inútil. De fato, os maiores pensadores da Ciência estão constantemente envolvidos numa interminável querela sobre quais os critérios que definem o que seja uma ciência. Ainda assim, nenhum deles jamais se furta à discussão de suas idéias e critérios, pois todos sabem que para se fazer ciência é preciso estar aberto para o debate, para a controvérsia e para a polêmica. Para todos eles um saber que não admite ser questionado certamente não é científico: ou é metafísico, por que traz em si uma verdade transcendente; ou é religioso, por ter sido revelado por um profeta; ou é ideológico porque oculta sistematicamente suas premissas básicas.

Outros evitam discutir a questão da cientificidade da Orgonomia porque para eles Reich estava acima ou além de uma ciência antiquada, dita mecanicista, preocupada com o rigor metodológico e com a precisão de suas medições. Não conheço nenhum cientista, por mais inovador que seja, que negue a necessidade de algum tipo de verificação rigorosa de suas proposições. Quando se trata de ciência (sobretudo de uma ciência experimental) em algum momento não se poderá escapar da necessidade de pesar, medir e contar. E isso não tem nada de retrógrado ou conservador. Em resumo, a meu ver, considerar inútil a discussão sobre a cientificidade da Orgonomia além de revelar um absoluto descaso intelectual, acaba por colocá-la lado a lado com todas as práticas não científicas, e, o que é pior, com o sério risco de lançá-la no mesmo saco que todas as mistificações.

Por outro lado existem aqueles que na tentativa de firmar a Orgonomia como uma prática científica, utilizam largamente tanto em textos técnicos como em folhetos de divulgação de cursos ou palestras sobre Orgonomia, termos tais como ciência, paradigma, epistemologia, ou outros retirados muitas vezes da física moderna ou da física quântica. No entanto a estrutura de muitos destes textos bem como a forma de articulação dos conceitos e a linguagem exortativa empregada, torna-os algumas vezes semelhantes a folhetos destinados à propaganda ideológica ou à venda de produtos miraculosos. Para firmar a Orgonomia como prática científica é preciso muito mais do que o uso constante de certas palavras-chave. Permanecendo-se neste nível, do simples jogo de palavras, o que se produz é somente um artefato cuja intenção é cegar os leitores, capturando-os e mantendo-os siderados, por meio do preenchimento de suas expectativas imaginárias.

Pessoalmente acredito que se deve procurar estabelecer a Orgonomia como uma prática científica, antes demais nada porque isso corresponde às intenções de Reich. Depois, porque isso contribui para que a Orgonomia tenha demarcado seu espaço próprio de atuação distinguindo-se de um sem número de práticas energéticas de orientação mística. Para se cumprir tal objetivo existem inúmeras possibilidades, cada uma delas fundamentada no pensamento de algum filósofo da ciência. Optei, neste momento, por conduzir minha reflexão segundo as sugestões de Isabelle Stengers (6), uma vez que esta autora dedica especial atenção às práticas científicas de caráter experimental, o que penso ser o caso da Orgonomia. Para Stengers uma prática para ser científica deve atender a três requisitos: deve deter a posse de um objeto de interesse que lhe seja próprio; deve ser capaz de produzir testemunhas fidedignas de suas hipóteses fundamentais; e deve ser capaz de provocar interesse na comunidade científica.

O primeiro requisito parece estar bem atendido pela Orgonomia que tem como objeto próprio os bíons e a diversas formas de manifestação e comportamento da energia orgônica.

O segundo requisito diz que uma prática científica deve manipular seu objeto próprio com o intuito de produzir fatos teóricos ou experimentais que sejam testemunhas fidedignas, capazes de confirmar ou negar a validade de suas hipóteses pré estabelecidas. Uma testemunha fidedigna é um fato que tendo sido submetido a um longo processo de controle e purificação, racionalmente conduzido e extensamente documentado, responde da maneira mais unívoca possível aos testes a que seja submetido. A intenção deste controle e purificação, contudo, deve ser apenas a de livrar o experimento de interferências, eliminando tudo que possa turvar o sentido de seu testemunho, e não a de ajustá-lo, à força, às premissas da hipótese. Qualquer resultado obtido deste modo, por meio de uma relação de força unilateral imposta ao experimento, deixa de ser um testemunho e se torna uma extorsão. Uma prática científica não age de modo extorsivo, e assim arrisca-se à decepção de se deparar com um testemunho fidedigno que refute qualquer uma de suas hipóteses. A esta disponibilidade para a refutação Popper (2) chamou de Princípio da Falseabilidade, considerado por ele um critério fundamental para distinção entre as práticas científicas e as pseudo-científicas. Uma prática pseudo-científica ora força o experimento para confirmar suas hipóteses; ora maneja seu aparato conceitual de tal modo que sempre lhe é possível arranjar uma explicação que invalide um testemunho que negue suas hipóteses.

Por isso é que boa parte da controvérsia científica incide justamente sobre o processo de controle e purificação. Muitas vezes um cientista questiona o trabalho de outro tentando mostrar que em virtude de uma deficiência de purificação e controle o fato apresentado não é uma testemunha é fidedigna, e o que ele revela poderia ter outras interpretações. O questionamento a que Reich foi submetido a respeito da presença de germens aéreos nas lâminas onde se viam os bíons, bem como a discussão que ele manteve com Einstein a respeito dos efeitos térmicos da energia orgônica são exemplos típicos desse tipo de controvérsia. Por outro lado, o próprio sujeito que criou o fato, caso esteja imbuído de uma postura científica, deve ser o primeiro a duvidar constantemente da fidedignidade de seu testemunho, submetendo-o sempre a novos critérios de controle e purificação. Em síntese, somente enquanto um fato resistir aos testes que lhe são impostos tanto por quem o criou como por outros cientistas, é que ele pode continuar sendo tomado como uma testemunha fidedigna.

Esse requisito cobra da Orgonomia a exposição de suas leis e de seus resultados experimentais a um questionamento amplo, inclusive daqueles que não fazem parte da comunidade de orgonomistas ou terapeutas corporais. Tudo isso com base em uma extensa e detalhada documentação que explicite claramente os passos seguidos para a formulação das leis, os protocolos desenvolvidos para a execução dos experimentos, e os critérios de controle e purificação utilizados. Uma descrição sucinta do experimento seguida da apresentação superficial dos resultados obtidos, tal como se vê na maioria dos trabalhos atuais sobre Orgonomia, deixa muito a desejar para uma prática que se pretenda científica. Nos moldes atuais não se pode se pode avaliar seriamente se um determinado fato criado pela Orgonomia é uma testemunha fidedigna. E enquanto a Orgonomia não se abrir para essa avaliação terá sérias dificuldades para se consolidar como uma prática científica.

Para a Orgonomia a avaliação da fidedignidade das testemunhas pode ser um pouco mais complicada. Isso porque Reich foi bastante incisivo quando destacou a influência do experimentador no resultado do experimento, chegando a dizer que um indivíduo encouraçado, bloqueado, não poderia ver nem compreender as manifestações físicas dos bíons e da energia orgônica. É claro que o estado emocional do sujeito afeta os resultados que ele obtém dos experimentos. No entanto, a força da proposição de Reich deu margem à infiltração no campo da Orgonomia de um certo tipo de argumentação defensiva e preconceituosa. Com base nas afirmações de Reich é sempre possível por em dúvida um questionamento lançado sobre a fidedignidade de uma testemunha produzida pela Orgonomia, alegando que tal questionamento não passa da manifestação do encouraçamento do interlocutor. Isto é de fato um problema pois o estado emocional do interlocutor acaba por se tornar um argumento coringa, que pode ser usado a qualquer momento, criando um ponto de fuga, uma rede protetora, capaz de livrar a Orgonomia de qualquer controvérsia a respeito de suas produções. E assim, protegida das controvérsias, ela se afasta das práticas científicas.

O terceiro requisito proposto por Stengers cobra da prática científica a capacidade de despertar interesse no maior número possível de cientistas, motivando-os a discutir amplamente seus resultados. Uma proposição precisa despertar interesse, antes de mais nada, entre aqueles que pratiquem ciência, para que possa vir a ser considerada científica. Despertar interesse não é, contudo, garantia de aceitação. Na verdade despertar interesse é somente atrair a atenção de outros, levando-os a verem na proposição uma diferença e um sentido suficientes para que se disponham pelo menos a tomá-la como merecedora de observação, ainda que seja para no final rejeitá-la. Ora, se pensarmos que no primeiro momento toda proposição é uma ficção, e que só será capaz de provocar efeito no mundo, e só se tornará realidade, se os outros lhe conferirem este status, veremos como é importante que ela seja capaz de provocar interesse. Nada é pior para um cientista do que não ser sequer refutado formalmente, vendo suas idéias serem postas de lado com uma observação lacônica do tipo "ele deve ter se enganado".

No mundo de hoje tornou-se totalmente anacrônica e deslocada a figura do "cientista louco", que isolado em seu laboratório e ensimesmado em suas elucubrações, produz teorias e conduz experimentos que servem exclusivamente para sua satisfação pessoal ou de um grupo restrito de admiradores. Um cientista que quer ser inovador, que quer criar história, deve portanto ser um estrategista dos interesses. Enquanto cientista faz parte de seu trabalho ser capaz de interessar aqui e agora, sobretudo a todos aqueles que podem ajudá-lo a levar a história a passar por ele. Ele não espera, contudo, que alguém se interesse por sua proposição do mesmo modo que ele o faz; ele espera que alguém simplesmente se interesse por ela.

Penso que foi essa necessidade de interessar aos cientistas que levou Reich a uma extrema angústia, quando num tribunal de justiça teve negado seus insistentes pedidos para que suas idéias fossem debatidas com cientistas e não com advogados. Ele queria pelo menos ser ouvido pela comunidade científica, mesmo que com isso suas idéias fossem refutadas como inexatas. De algum modo Reich percebeu que era uma condição para que seu trabalho pudesse vir a ser considerado científico era que ele fosse capaz de interessar e atrair a atenção de cientistas. Ele temia que se seu trabalho não se inserisse no fluxo de pensamento de seu momento, de sua época, poderia vir a se perder na vala comum das boas idéias que não vingaram, que não fizeram parte da história do pensamento humano.

O fato de Reich não ter sido ouvido não justifica uma reatividade sectária, que teima em não considerar a comunidade científica como uma interlocutora válida. Ao contrário, para que a Orgonomia não seja olhada como uma prática excêntrica ou como uma "ciência de fundo de quintal", precisa se expor e competir no interior do saber científico na forma como ele se apresenta hoje.

Fazer Ciência não é fácil e exige um enorme esforço intelectual que implica no abandono de posturas teóricas e experimentais amadorísticas, excessivamente calcadas em vagas impressões subjetivas. Além disso exige uma grande coragem para que se ponha constantemente em questão tudo aquilo em que se acredita. Nesse ponto é importante lembrar as palavras de Reich quando dizia que "Os seguidores tendem a tornar as questões muito fáceis para si mesmos. Tomam a matéria duramente elaborada e operam com ela da maneira mais cômoda possível. Não fazem nenhum esforço para encontrar todas as sutilezas do método. Tornam-se indolentes, e o complexo de problemas deixa de ser um desafio" (4). Em síntese, a meu ver, quem lida com a Orgonomia e pretende fazer dela uma prática científica precisa deixar de lado a indolência e se esforçar para produzir testemunhas fidedignas e para provocar interesse na comunidade científica.
 

BIBLIOGRAFIA

1. Oliva, A. (org). Epistemologia: A Cientificidade em Questão. 1a edição, Campinas: Papirus (1990), pp 35 a 58.

2. Popper, K. A Lógica da Pesquisa Científica.1a edição, São Paulo: Cultrix (1974).

3. Reich, W. Funcionalismo Orgonômico II, Apostila traduzida por autor não identificado.

4. citado por Reich em Funcionalismo Orgonômico II

5. Reich, W.A Função do Orgasmo. 3a edição, São Paulo: Brasiliense (1977), pp 105 a 106.

6. Stengers, I. Quem Tem Medo da Ciência? Ciências e Poderes. 1a edição, São Paulo: Siciliano (1989).
 

O Autor:

Luiz Carlos de Oliveira Marinho

Psicólogo; Mestre em Filosofia,UFRJ; Psicanalista e Psicoterapeuta Corporal

Consultório: Rua Real Grandeza, 182, casa 3, Botafogo,CEP: 22281-031,RJ .

tel: 539-0991
 
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