O R G O N i zando

Psicoterapia Corporal
e Orgonomia 
desde Wilhelm Reich

Reich e multidisciplinaridade

Maria Helena Simão Cruz

Trabalho apresentado na I Jornada Reichiana realizada pelo CRP/05, Rio de Janeiro, 30/09/2000.
Publicado em Caderno de Psicologia/Universidade Santa Úrsula, Rio de Janeiro, vol. 4, 2000.

Resumo:

A  autora mostra que  as  idéias  de  Reich  estão  presentes  hoje  em  várias  áreas  do  conhecimento  humano,  optando  em mostrar  essa  influência  na  área  de  saúde, especialmente nos programas voltados  para a promoção da saúde no início da vida, como o parto humanizado e o aleitamento materno.

O campo da multidisciplinaridade é muito vasto. E as idéias reichianas estão interpenetradas em vários campos do conhecimento, pois Reich teve o privilégio de ter nascido com uma mentalidade muito à frente do seu tempo. Por isso  vou me restringir ao campo da saúde humana, mostrando como as idéias de Reich permeiam alguns programas atuais dessa área.

 

Conteúdo

Reich e a promoção da saúde

Se a  Organização Mundial de Saúde hoje define a saúde como o “completo bem estar físico, mental e social”, e não mais a ausência de doenças, esse conceito reflete as mudanças ocorridas na saúde nos últimos tempos, principalmente no século XX. A medicina durante muitos anos foi voltada para a cura das doenças.

Quando pensamos na saúde voltada para o início da vida, logo de saída vemos as contribuições de Reich nesse sentido. Ele já previa que os cuidados com o ser que viria ao mundo deveriam começar antes da concepção. Esta deveria ser desejada e conseqüência de um ato de amor. Esses cuidados deveriam continuar na gestação, no parto, nos primeiros anos de vida e na adolescência, pois ele percebia a continuidade do desenvolvimento psico-emocional do ser humano.

Já no final dos anos 20, em Viena,  Reich desenvolvia um programa de prevenção das neuroses, pois percebia claramente que os problemas decorrentes da pobreza e da repressão sexual eram provocadores de neurose. E não adiantava apenas trabalhar no sentido de curá-las, era preciso, sobretudo evitá-las. Tentou lutar pelas duas causas juntas: a melhoria das condições de vida das pessoas e a eliminação da repressão sexual. Assim estaria fazendo um trabalho para eliminar as causas, um trabalho preventivo no sentido de promover o bem estar e evitar as neuroses.  Esse trabalho continua em Berlim, no início dos anos 30, através de um programa conjunto com outras associações.

Dentre os vários aspectos do programa estava a distribuição de contraceptivos e informações sobre o controle da natalidade; abolição das leis contra o aborto e ajuda financeira durante a gravidez e o aleitamento; eliminação das doenças venéreas através da educação sexual; treinamento de profissionais de saúde em todos os assuntos importantes da higiene sexual.

Mais tarde, nos Estados Unidos, dando continuidade ao seu trabalho de promoção da saúde, cria o Centro de Pesquisa Infanto Orgonômica, onde pretendia, dentre outras coisas, cuidar das mães grávidas e dos primeiros  anos de vida do bebê. Assim estaria evitando problemas de neurose no futuro adulto, tão mais difíceis de serem tratados.

Essa concepção está presente  em vários programas atuais de promoção da saúde voltados para o início da vida. Vou mencionar apenas dois deles. Um é a prática do parto humanizado. O outro é a prática do aleitamento materno.

O parto humanizado parte da concepção de que esse momento tão especial na vida do ser humano pode ser vivido com o mínimo de estresse. Os bloqueios decorrentes da falta de cuidado nesse momento podem ser evitados. Várias maternidades públicas e privadas do Rio de Janeiro já adotam essa prática, pois os seus profissionais de saúde são preparados para ela. Logo que a criança nasce ela é colocado sobre o corpo da mãe, onde as duas têm um contato pele a pele, onde o recém nascido sente o cheiro da mãe, já pode sugar o seu seio e ouvir as batidas do seu coração, como ouvia dentro do útero. É uma maneira de tornar mais agradável e menos estressante esse momento tão especial. Após o nascimento o bebê pode permanecer no quarto, ao lado da mãe e não mais no berçário. A mãe, por sua vez, pode receber informações necessárias para facilitar o seu lidar com o bebê.

Uma outra prática bastante difundida no mundo atual é o aleitamento materno. No Brasil o Ministério da Saúde tem incentivado essa prática, pelo fato dela promover a saúde no primeiro ano de vida, diminuindo muito os índices de mortalidade infantil.  As inúmeras pesquisas recentes sobre aleitamento materno comprovam a eficácia física e emocional do aleitamento. Os benefícios para a saúde da criança são inúmeros.

Do ponto de vista nutricional o leite humano contém nutriente em quantidade e qualidade necessárias  ao desenvolvimento adequado do bebê. Para a população de baixa renda constitui prevenção de doenças no primeiro ano de vida, decorrentes da desnutrição. Para as comunidades ricas ocupa um lugar preventivo em relação à obesidade e demais conseqüências da super alimentação.

Os benefícios imunológicos  são inúmeros, inclusive em doenças de destaque na saúde pública, como cólera, dengue, pois o leite humano eqüivale a uma vacina. Ele reúne em sua composição mais de 150 substâncias diferentes, todas com funções biológicas definidas.

Do ponto de vista emocional, permitir à criança ser alimentada no peito é dar a ela um contato próximo com a mãe, que além de satisfazer as suas necessidades orais, vai lhe permitir uma melhor estruturação do Eu através das trocas afetivas e de calor.

Quando a criança suja o peito ela trabalha um grupo de músculos, evitando no futuro  problemas respiratórios e na arcada dentária.

Há autores que mencionam maiores índices de Q.I. entre crianças amamentadas ao seio.[1]

Em relação à mulher, a recuperação pós-parto associada à diminuição do sangramento e involução uterina é a  principal vantagem.

Do ponto de vista econômico é melhor para a família e para o Estado, uma vez que o custo é zero.

Mas não podemos esquecer a importância da cultura no comportamento humano. A amamentação não é apenas um fato biológico. Não basta ter um par de mamas para que a mulher possa amamentar. A influência cultural é muito importante. Se a amamentação hoje é vista como um ato de amor, onde o normal é amamentar, nem sempre foi assim.  Badinter (1995) mostra que o amor materno é apenas um sentimento. E esse sentimento não é inerente à condição da mulher. Ele é adquirido. É produto da evolução social a partir do século XIX, pois nos séculos XVII e XVIII na França as crianças eram entregues, desde o nascimento, às amas, para que fossem criadas por elas. Eram levadas para a casa delas  e só voltavam para a família  depois dos cinco anos, quando sobreviviam, pois as condições de higiene na casa das amas eram precárias. A tarefa de amamentar não era nobre para uma dama. O conceito de amor materno não era ligado à amamentação.

No final do século XVIII já se observa uma mudança de mentalidade. As publicações recomendam às mães cuidar pessoalmente dos seus filhos e amamentar. O que é novo aqui é a exaltação do amor materno. A sobrevivência das crianças agora  é prioritária e o abandono do aleitamento é considerado injustiça para com o filho. O número de crianças encaminhadas para amas diminui muito na França a partir de 1800. Nos séculos seguintes nós vemos a continuação desse novo amor, influenciado pela literatura e pela psicanálise.

Agora, nesse início do século XXI o aleitamento continua  intimamente relacionado ao amor materno e as campanhas de aleitamento reforçam essa posição. A grande diferença é que o conhecimento científico se faz cada vez mais presente, incentivando as mães através da informação, pois as pesquisas mostram a superioridade da amamentação no seio.

A postura de Reich foi uma postura típica do século XX, onde a preocupação com a saúde se tornou um trabalho cada vez mais amplo e mais precoce. Os programas de saúde se tornaram cada vez mais voltados para o início da vida, como propunha Reich. Hoje é óbvia a visão de que a criança tem características próprias, que a difere do adulto. Ela precisa de cuidados especiais na educação e na  saúde para que a doença no adulto seja evitada. Mas nem sempre foi assim.

Na idade média, entre os séculos XII e XV,  o sentimento de infância não existia, ou seja, a consciência da particularidade infantil, que distingue a criança do adulto.  Logo que a criança era capaz de dispensar a ajuda da mãe ou da ama, depois de um desmame tardio que acontecia por volta dos 7 anos de idade, ela ingressava na comunidade dos adultos.  Participava dos jogos e dos trabalhos. O traje também não a diferenciava dos adultos. Assim que deixava o cueiro, faixa de pano que envolvia o corpo da  criança, ela se vestia como os outros homens e mulheres. Nada nos trajes medievais a separava do adulto, embora a roupa mostrasse a hierarquia social.

O sentimento de infância começa a aparecer no século XVI, e a atitude em relação à criança passa a ser diferente nos séculos XVI e XVII. A criança passa a ser paparicada e fonte de distração. O cuidado dispensado a ela passou a inspirar sentimentos novos e uma afetividade nova. Aparece o interesse psicológico e a preocupação moral que vão inspirar a educação do século XX. No século XVIII surge também a preocupação com a higiene e a saúde física.

Esse sentimento de infância não só permanece, como se tornou mais precoce. Os aparelhos de alta resolução comprovam hoje o que Reich já intuía. Com o advento do ultra-som, os estudos de Piontelli nos mostram como acontece a continuidade do comportamento humano. Estudando fetos através de ultra-sonografias a partir do 5º. mês de gestação ela nos mostra como já existem características neles que vão continuar após o nascimento. A interação com o ambiente também começa muito mais cedo do que se imaginava. Um feto cuja mãe sofreu descolamento de placenta, com muito sangramento, muda totalmente o seu comportamento intra-uterino, tornando-se quieto e contraído, continuando com essas características após o nascimento. Mostra medo de água e de enxurradas.

Assim, as características infantis passam a ser percebidas em fases mais precoces do desenvolvimento.

A idéia básica do pensamento reichiano, o homem genital, o homem saudável, pode ser aplicada a várias disciplinas, pois ela é multidisciplinar. O ser humano sem bloqueios excessivos que lhe impeçam a realização da sua capacidade, das suas possibilidades. Sem bloqueios sexuais, musculares, afetivos, energéticos e intelectuais. É a integridade da sua capacidade que deve ser

mantida. Os programas de saúde, convergindo na mesma direção, estão facilitando esse caminho.

Para que as possibilidades do ser humano possam ser melhor desenvolvidas há sempre um caminho facilitador em detrimento daqueles mais sinuosos. A gestação desejada,  fruto de um ato de amor, é importante, mas um nascimento dentro de condições sócio-econômicas e políticas dignas, como Reich desejava, junto com o aleitamento natural de acordo com a demanda da criança, a troca afetiva, a educação sem cerceamentos desnecessários, mas dentro dos limites de respeito ao outro, são condições facilitadoras, mesmo se considerarmos todas as dificuldades atuais das grandes cidades.

Assim, um  país que priorize a  promoção da saúde dos seus cidadãos, dando-lhes boas condições de vida, dando à criança acesso à educação básica, condições de respeito como cidadão, promovendo o seu bem estar,  estará fazendo uma boa parte para que ele seja um ser humano sadio.

 Abstract

The  author  shows  that  Reich's ideas  are  present nowadays  in  several  areas of the human knowledge. She shows that  influence  in  the   area   of  health,  especially   in   programs   regarding  the  promotion of health in the beginning of life, such as the humanized  childbirth  and the breast feeding.

Referência bibliográfica:

Almeida, João Aprígio Guerra de, 1998.  Amamentação: repensando o paradigma. Rio de Janeiro, Editora FIOCRUZ.

Ariès, Philippe; 1981. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro, Zahar.

Badinter, Elizabeth; 1985. Um amor conquistado. O mito do amor materno. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

Boadella, David, 1985. Nos Caminhos de Reich. São Paulo, Summus.

Piontelli,  Alessandra, 1995. De feto a criança. Rio de Janeiro, Imago.

Reich, Wilhelm; 1978.   O combate sexual da juventude. Porto, Textos Marginais

Reich, Annie, 1979.  Se teu filho te pergunta. Rio de Janeiro,  Espaço Psi.          

Shafaff, Myron; 1983. Fury on Earth. New York, St. Martins Press/Marek.

Autora

Professora do Instituto de Psicologia e Psicanálise/USU, Psicóloga clínica com enfoque teórico eichiano.


Notas

[1] Lucas et al., 1992, in Almeida, J.A.G.,  1998.

 

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