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O R G O N izando

Produzido por: José Guilherme Oliveira

Linguagem Encouraçada e Linguagem Desencouraçada

por Frinea Brandão e João Paulo Lyra da Silva

English version

© 1997 - Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/ling-enc.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.

A PALAVRA
O CORPO
A TERAPIA
A ESTRUTURA
A PRIORIZAÇÃO DA INTERVENÇÃO: VERBAL OU DIRETA?
A PALAVRA E A ESTRUTURA NA TERAPIA
A RELAÇÃO SUJEITO OBJETO E AS ESTRUTURAS
SUJEITOS DESEJANTES UTOPIA POSSÍVEL
O BEM ESTAR
A PALAVRA E A ENERGIA
AS ETAPAS DA PSICOTERAPIA

A PALAVRA

A língua é, do ponto de vista da lingüística, o sistema de signos que permite a comunicação entre os membros de uma comunidade. Através da linguagem, uso da palavra como meio de expressão, dela as pessoas se apropriam.

A palavra é, assim como a atitude, o gesto e a emoção, elemento significativo fundamental em uma terapia assim chamada corporal.

A palavra como signo combinaria um conceito, o significado, a uma impressão acústica, o significante.

A imagem acústica de um signo lingüístico não é o som material, mas a impressão psíquica desse som.

O signo é sempre signo de uma ausência, remete a outro signo, ou ainda, o signo é signo da ausência dos outros signos e remete a eles, formando cadeias associativas.

O CORPO

Ao falar do corpo vemos, já estabelecidos, múltiplos conceitos. Falamos de um corpo matéria, de um corpo espaço, de um corpo movimento, energia.

Fundado na vida, dotado de história que o inscreve em seus contextos biológico, psíquico e social, é essencialmente dinâmico.

Os seres vivos, já há um e meio bilhão de anos munidos de sexualidade e há seiscentos e cinqüenta milhões de anos de um sistema nervoso, só se sociabilizam, sedentariamente, como espécie humana, há, aproximadamente, dez mil anos.

Sexualidade, sistema nervoso, cultura (sociabilização) participam, como canais e geradores de possibilidade, do patrimônio de informações, entre as que são identificadoras de uma pessoa, como ser vivo, em sua comunicação, no processo de emparelhamento com o meio ambiente.

Sexualidade, sistema nervoso e cultura tem nessas ordens de grandeza de tempo, (um e meio bilhão, seiscentos e cinqüenta milhões e dez mil anos) seus graus de aprovação nos testes de validade adaptativa. Ou seja, mais provados como positivamente adaptativos os "drives" sexuais e as sensações, que os processos psíquicos mais elaborados.

Os seres vivos emparelham-se com o meio ambiente por fechamento ou por abertura.

A homeostase exemplifica o emparelhamento por fechamento.

As estruturas receptoras de estímulos dos órgãos do sensório, o emparelhamento por abertura.

No sistema nervoso humano, de acordo com Nauta e Freitag, haveria 0,02% de neurônios dedicados ao emparelhamento por abertura (entrada e saída), e 99,98% de neurônios dedicados ao emparelhamento por fechamento, (assimilação-acomodação das entradas e elaboração das saídas).

Entendemos o conceito reichiano de expansão como movimento relacional direcionado no emparelhamento por abertura e o de contração como movimento relacional direcionado no emparelhamento por fechamento.

A adaptabilidade do corpo, biológica, psicológica, social se afirma em múltiplas relações sujeito/ambiente. É aí que situamos as funções da ESTRUTURA PSÍQUICA e do CARÁTER.

A TERAPIA

Os gestos, a atitude, as emoções, a fala, tudo o que se coloca do terapeuta, em um relação terapêutica, tem, para o paciente, peso.

Um dos movimentos impulsionados por esse peso é o da tentativa de significação.

O paciente sempre vai esperar isso de nós como terapeutas.

É uma das demandas que está inscrita na procura da terapia.

A significação vai liberar outros signos, a serem significados, que até então se encontravam latentes em suas cadeias associativas.

Essas cadeias associativas, que se entrecruzam, se encontram arranjadas em diversos sentidos e direções, como numa rede.

A energia que movimenta essa "dispersão associativa" provém do ato de significar, do processo de significação.

O sentido e direção particular, privilegiado, de maior concentração energética, seguido em um dado momento no encaminhar nessa rede, também é dado pela própria significação.

Já a forma de amarragem dos signos na cadeia associativa, esta, vai variar de acordo com a estrutura e o caráter do paciente.

Diversas representações gráficas cabem para essa rede de signos.

A representação gráfica aparente, manifesta no contexto de uma determinada relação terapêutica, tem a haver com a forma de comunicação que a estrutura psíquica e o caráter dos sujeitos demandam em sua expressão comum.

Assim, tem sentido e significação aquilo que se inscreve numa rede de signos, rede caracteristicamente complexa, pluridimensional e não unívoca. A cadeia associativa não é linear.

A ESTRUTURA

Entendemos como estrutura psíquica o modo de arranjo energético do sujeito e de suas funções.

Esse arranjo é a nosso ver determinado pela ancoragem da inscrição tópica profunda da relação mãe/filho.

E a relação mãe/filho, superdeterminada pelo fenômeno edípico.

No fenômeno edípico, relendo Lacan e Winnicott, propomos a função mãe limite, o outro, o tu, corolário do narcisismo primário, próprio do id e fundador do ego, e a função pai, a terceira pessoa, a lei, como fundadora do superego, sedimentador do ego.

A estrutura é um todo, reconhecidas interrelações, partes, diferente da organização.

Organização é o aspecto finalístico que se atribui ao se analisar aspectos de, ou uma estrutura, ela própria tendo sempre um caráter heurístico.

Assim, dentro da nossa leitura não podemos falar de estruturas doentes, mas sim de aspectos, núcleos organizacionais doentes que gravitam, cindem, simbiotizam na estrutura.

Relendo Reich encontramos que o corpo substancia essas instancias relacionais.

Assim distinguimos as seguintes estruturas:

A ancoragem da inscrição tópica profunda da relação mãe/filho, acima mencionada, se daria na forma estabelecida predominante de vivência da demanda imaginária do outro.

Entendemos como caráter, a partir de Reich, o modo de reação típico, não vivido como sintoma ou síndrome, constituinte da personalidade do indivíduo.

Essencialmente, seria a forma de comportamento típica na relação.

Constituído com o superego, na sedimentação do fenômeno edípico, expressa-se no Ego, tal como ponte de ligação entre as duas instancias.

Origina-se, por superdeterminação, ontogeneticamente, de acordo com as fases do desenvolvimento libidinal.

Assim teríamos os caracteres compulsivo, masoquista, passivo-feminino, fálico e histérico.

A PRIORIZAÇÃO DA INTERVENÇÃO: VERBAL OU DIRETA?

Para a mecânica quântica, hadrions (próton, neutron, méson etc.) estabelecem com leptons (elétron, múon, neutrino, etc.) quatro tipos de interação: eletromagnética, fraca, forte e gravitacional.

As interações resultam da troca de bosons (fóton, bosons fracos, gluons e grávitons).

No organismo a comunicação intercelular se dá também através de processos energéticos com quanta variáveis.

A dinâmica dos processos energéticos intracelulares é estreitamente vinculada a dos processos intercelulares e célula matriz extracelular.

As macromoléculas funcionam como informação codificada nos diversos níveis de energia que interagem para sua fundamentação, intra-atômica, intra-nucleares e interação núcleo-eletrosfera, interatômica, pontes covalentes, divalentes, pontes de hidrogênio, dissulfídricas, ligações iônicas.

Entre as macro moléculas, as moléculas menores e os ions há complexa interrelação associada as energias intra-atômicas e interatômicas de seus constituintes.

Essa interrelação estabelece bailado constante com troca de informações e conseqüente criação de novas informações.

A nível molecular, por exemplo, as nuvens eletrônicas geram momentuns de eletronegatividade que estabelecem dinâmicas tempo-espaço em cromatismo infinito quanto às ordens de grandeza.

Determinados atratores, na relação tempo-espaço, nos permitem algumas idéias de momentos estáticos dos processos, entre os quais temos a morfologia anatômica, histológica, ultraestrutural de células, de moléculas e de suas interrelações em estruturas complexas.

Em paralelismo, quanto ao comportamento de comunidades humanas ou pessoas no processo saúde doença, assim também visualizamos "atratores de morbidade"(A pobreza associada a eventos mórbidos nas chamadas doenças infecto contagiosas, p.ex.).

Ou seja, os "atratores de morbidade", ou diagnósticos de situação, seriam visões "estáticas", ou de um momento, de uma realidade extremamente dinâmica.

Assim a intervenção do profissional de saúde deve se orientar a partir da percepção do alcance de uma determinada técnica da qual ele se apropria, tendo claro suas limitações e qual o momento dessa realidade dinâmica que se torna privilegiado para aquela intervenção.

O momento privilegiado pode ser definido em distintos níveis de acuidade e profundidade.

O diagnóstico da estrutura e do caráter é de um grau de acuidade e profundidade necessário e suficiente para a maior parte das intervenções esperadas em uma terapia reichiana.

A PALAVRA E A ESTRUTURA NA TERAPIA

O signo lingüístico, a palavra, no fenômeno psicótico dissociar-se-ia em seus elementos constitutivos, significante e significado. O signo assim dissociado continuaria, contudo, a ser utilizado pelo psicótico como se fosse signo, embora desnaturado.

O psicótico utilizaria por vezes o signo amputado da sua função de significante ou de seu valor de significado, o que correlacionamos ao que Reich chama de desdobramento esquizofrênico.

Podemos também formular o que poderia caracterizar a neurose, em função do signo, do significante e do significado.

A neurose, aí, seria principalmente, uma perturbação do uso da relações significativas entre os signos.

O neurótico obsessivo, por exemplo, usaria essa propriedade fundamental do signo, a de induzir relações significativas, para construir sua obsessão, cujo efeito é pelo menos o de diminuir a livre circulação do sentido.

De modo geral, a perturbação das relações entre os signos é evidente na observação das neuroses: curtos-circuitos, relações privilegiadas, relações por via indireta.

Essa perturbação, ressoa ao nível da constituição de certos signos, reforçando a aparência de uma das faces: significante ou significado.

Na concepção de Reich, a neurose se expressa na blindagem muscular, que inibe a circulação da energia, criando curtos-circuitos, privilegiando relações, principalmente relações por via indireta.

Como diz Françoise Dolto, o psiquismo é a metáfora do corpo e de suas funções.

Reich nos propõe a concretude. O psiquismo está localizado no corpo e o corpo, com suas inibições, ou com a livre circulação de energia é uma metonímia ou uma metáfora do psiquismo.

As relações entre os signos estão perturbadas também na psicose.

É, porém, o aspecto menor da perturbação fundamental que é a alteração da constituição do próprio signo.

O uso somente significante do signo, por exemplo, especifica insuficientemente o fenômeno psicótico, mas responde à opinião corrente de que o psicótico faz uso das palavras dentro do "sentido dele".

A elucidação do signo se faz na transferência. O psicótico se comunica diretamente com o psicoterapeuta, colocando-o na sua função proposta. O de seu interlocutor e curador.

Como característica, na resistência, o ignora, o recusa ou mais ainda o rejeita, foraclui, como às experiências primárias temidas.

Na resistência, como característica, o psicopata disputa espaço, desafia.

Na resistência, como característica, o perverso burla propondo ao terapeuta um confronto com o imperceptível.

Na resistência, como característica, o neurótico idealiza o terapeuta, rearranjando, na transferência os afetos correspondentes aos signos de forma peculiar.

O psicótico consegue ver e perceber o psicoterapeuta quando dá algum significado afetivo à relação, ao romper das barreiras narcísicas. Ele passaria a ser, então, para o psicótico, o organizador de seu discurso.

A clivagem dos signos se dá de formas diferentes nas psicoses.

Para o esquizofrênico, por exemplo, todo significante pode ser levado a designar um único e mesmo conceito ou significado.

Em outras palavras o conceito ou significado não está ligado de maneira estável a um significante, mas são possíveis numerosas permutações de significantes para designar esse significado.

O esquizofrênico vive num mundo de símbolos múltiplos em que a concretude assume a dimensão de imaginário.

Contrariamente, para o delirante, um único significante pode designar não importa qual significado. O significante não esta ligado a um conceito definido, e é alterado no simbólico. É assim que o perseguidor, por exemplo, será intercambiável. "Eles estão me perseguindo".

Para Reich, o esquizofrênico é desorganizado no campo afetivo, assim também seu corpo é desorganizado. Seu campo energético é aberto e através dele capta com facilidade o campo afetivo do outro, só que não consegue perceber o que é dele e o que é do outro, porque as permutações de significantes são numerosas.

Já o neurótico faz de seu discurso o significante de seu próprio ser e, se fala de coisas, diferencia-as de si mesmo. Quando o neurótico fala de si, idealiza seu ego, procurando tornar esse ego idêntico à sua subjetividade mediatizada pela linguagem.

A comunicação pela ação da linguagem só é possível na medida em que eu falo, reconheço que sou eu quem fala enquanto sujeito. Assumo as falas pronunciadas por mim, e também quando presto atenção ao discurso do meu interlocutor, sem toma-lo ao pé da letra, ajustando suas falas na medida da subjetividade que lhe atribuo, esforçando-me por reconhecer a intenção que o anima.

A RELAÇÃO SUJEITO OBJETO E AS ESTRUTURAS

Não tendemos mais, hoje, a confundir teoricamente o "ego" (formação, deformação, informação) com o caráter simbólico do sujeito.

A comunicação, acima descrita, entre dois sujeitos (S e O), vai de S em O, ou inversamente. Existe, no entanto, o desvio necessário pelos egos, de S e de O.

Esse é o modo de "ti a mim" da comunicação intersubjetiva, que não poderia pretender, fora em algumas situações particulares, uma via mais direta.

O delirante desenfatiza o ser do qual fala, tanto em relação à sua subjetividade, quanto em relação à característica egóica do discurso.

Fala de si como se falasse de um outro, como de uma coisa dentre as coisas, vendo-se como outro o veria, como objeto.

Seu discurso não exprime subjetividade manifesta.

O ego que descreve não é delineado nem carregado: ele é um outro, um objeto.

Há coincidência entre S e O.

O sujeito delirante reconhece um único outro: todos os sujeitos são instrumentos na mão de um mestre, a demanda imaginária.

Este ego, com pouca sintonia em referencias subjetivas, é então preso a um pseudo racionalismo imaginário, aberto às influencias e manobras do outro.

Contrariamente, na perversão, a via privilegiada de comunicação passa pelo eixo do imaginário, paralisado em uma oposição dual.

Dualidade subjetiva inexorável, entre o si e a demanda imaginaria do outro, que lastreia sua vinculação com o real.

Já na psicopatia há introjeção do outro, passando os objetos, nesta forma de relação, a serem incorporados pelo sujeito.

Encontra, introjetada uma mãe negadora.

O delirante, ao perder referencia simbólica de sua subjetividade, tende a se confundir com um outro. Do eu ao ter, percebe nítida a diferença. De um si a outro si, superposição.

Num mundo onde reinam "a gente e eles", a confusão é fácil.

Não existe nos delírios distribuição exata dos papeis "eu" e "tu", e em seu lugar aparece "eles".

O sujeito não dirige mais o sentido da linguagem que fala.

Em vez de conduzir e de escolher, é possuído. Poderíamos dizer que o delirante não fala mais, que é falado.

Na esquizofrenia, o eixo privilegiado é o eixo simbólico S-O.

O esquizofrênico, com o ego reduzido de suas funções, não se identifica com um alguém e sim, como subjetividade radical, é participante da essência divina.

A abordagem psicoterapêutica, que nos parece adequada, aí, consistiria em, por algum meio que seja, ajudá-lo a restituir o uso de sua função imaginária (do desvio O-O). A faze-lo aceitar alguma identificação de natureza imaginária. Dito de outra maneira, a "costurar" seu ego.

Através do trabalho corporal de desbloqueio do primeiro segmento com ênfase na relação, técnica criada por Reich, é possível a reconstituição do ego. O paciente restitui seu narcisismo primário, criando para si uma estória outra, podendo dinamizar seu ego.

SUJEITOS DESEJANTES UTOPIA POSSÍVEL

Para Freud a identidade é sempre conflituosa, e o discurso idem. Só há formas de prazer conflituosas.

Para Reich é possível uma identidade sem conflitos. É possível reinscrição ativa do narcisismo primário. Não existe pulsão de morte, enquanto pulsão total e sim pulsão parcial, deslocamento de pulsão de vida.

Reich propõe uma identidade direta com a natureza, identidade que faz uso de um estado que transcende o uso das palavras.

Através de uma integração energética, dos campos pessoais, em contato, que ocorreria essa identidade. Essa visão de campos energéticos propõe, para nós, uma "cosmogonia do desejo".

É nossa visão pessoal que os espaços, macrocosmos, microcosmos, se superdeterminam.

Assim situamos o corpo, do "big bang" à intimidade amorosa.

Vemos as vidas impossíveis de serem aprisionadas em um único olhar.

O discurso pode ser aprisionador, expressão do corpo aprisionado.

O ego com suas funções nos diz de nós mesmos a nosso interlocutor.

A linguagem vai expressar mentiras e verdades na percepção de nossas relações.

O discurso é verdadeiro e livre quando é expressão do desejo.

Desejo que às vezes corresponde e às vezes independe da vontade.

Desejo conectado em seu berço com as vivências de satisfação.

Desejo que se inscreve em relações.

Nessa releitura de Reich, entendemos o aparelho psíquico nascendo em vivências de satisfação, em conexão com o narcisismo primário.

O narcisismo primário é o fundador do aparelho psíquico, como na primeira tópica freudiana.

Há a possibilidade do sexo sem culpas, da agressividade como defesa ou impulso, do medo só diante de uma catástrofe da realidade.

O BEM ESTAR

Os mesmo estímulos podem provocar reações distintas em um mesmo organismo.

O sentido agradável ou desagradável, varia de pessoa para pessoa, de momento para momento.

Pessoas com maior grau de bem estar, com couraças mais móveis, na linguagem reichiana, são capazes de não temer o agradável e de detectar e sair mais rapidamente das situações desagradáveis.

Essas pessoas são mais potentes orgasticamente.

A PALAVRA E A ENERGIA

As palavras no nosso entender, são carregadas não só de significações. Expressam as ações, os desejos, as vontades, as emoções.

São carregadas energeticamente e são capazes de produzir movimentos no organismo.

Uma palavra dita no momento certo, pode desencadear as mais diversas emoções.

Esse momento certo, seria o momento propício também da interpretação, o momento de mais carga, onde há investimento e contrainvestimento.

O momento de investimento é aquele em que há uma relação tal que existe um objeto fora do âmbito das relações narcísicas.

São brechas que acontecem na vida cotidiana e em seu recorte especial, na psicoterapia.

AS ETAPAS DA PSICOTERAPIA

A psicoterapia pode ser dividida em vários momentos.

Num primeiro momento, que chamaremos de reprodução estática do cotidiano, a relação na maioria da vezes é narcísica. É o que Reich chama de primeira camada.

O paciente esta no eixo sujeito - narcisismo secundário - sujeito.

Ele é sujeitado pelo seu próprio narcisismo secundário.

Num segundo momento (segunda camada), o momento da transferência, há a saída das resistências narcisistas. Dentro do ponto de vista tópico, a passagem para as inscrições pré-conscientes do ego e do superego.

É quando o paciente nos inclui em seu âmbito familiar, onde as raízes do seu cotidiano estão ancoradas.

O terceiro momento (terceira camada), poderíamos chamar de momento do "aqui e agora" com pregnância do id.

Há relação livre direta entre os organismos do psicoterapeuta e do paciente.

Entendemos organismo com o aparelho psíquico completo agora, substanciado afetiva e fisicamente, energeticamente, no corpo.

O id, sede do narcisismo primário e o superego, inscrição social dos afetos, se encontram intercambiando ativos e dinâmicos na relação interpessoal, permitindo as expressões orgânicas da função limite e da função lei.

Creio que Reich foi o primeiro psicoterapeuta a propor esse momento.

É o momento além da transferencia, onde a intimidade emocional é extremamente presente.

As intenções se traduzem por inteiro, a coerência interdiscursiva afetiva é evidente.

Como então ficaria a palavra inscrita nesses momentos tão diversos?

No primeiro momento, a palavra não seria trocada.

Seria jogada banalmente, em tentativas de descrição, de fugas, de defesas.

O psicoterapeuta trabalha as resistências, priorizando a mais constante dentre as mais constantes, ou seja as mais carregadas energeticamente.

Reich, inventou o método de trabalhar as resistências quando ainda era psicanalista, metodologizando a analise do caráter.

Descobriu a importância da forma do falar, suas contradições, o conflito entre a necessidade de relação e o medo da relação.

A palavra só, não foi suficiente. Passou a perceber o corpo, os gestos - outras linguagens.

A palavra foi colocada em um lugar e em um momento específicos.

Quando a palavra é enquadrada nesse todo, quando é organizadamente colocada, ela propicia a passagem e a inserção para o segundo momento - o da transferência.

Esses momentos, vale a pena lembrar, não podem ser codificados por um tempo cronológico, linear.

Os tempos desses momentos, remetem à atemporalidade do inconsciente e são variáveis para cada paciente, em cada relação terapêutica.

Cada um tem seus próprios tempos.

Esses tempos também não acontecem necessariamente em separado.

Podemos dizer que haveria pregnâncias e preponderâncias de sentido e tempo.

No segundo momento (segunda camada), a palavra já carregada, ganha novos sentidos. Não predominam as descrições vazias. Há contradições, carregadas de sentido. Os sentidos estão mais desorganizados. As estórias do paciente vão sendo atualizadas, para que através delas, aprenda uma nova historia, reinvente sentidos, os enganos em dissipação, desobstruam opções mais desejadas.

Essa saída do reino do narcisismo secundário, propicia um novo encontro com o narcisismo primário.

Ainda a relação se estabelece Sujeito-sujeito, mas posso acrescentar Sujeito-objeto-sujeito, sendo esses objetos as inscrições históricas.

O psicoterapeuta, então, trabalharia esse envolvimento, atuando na função transferencial em que é colocado.

As palavras são reveladoras e através dessas revelações, o paciente se reorganiza constituindo novos significados.

Os afetos, o corpo, as substâncias, a energia, tem importância equivalente nesse momento da relação.

O terapeuta, guardando as diferenças de estrutura e caráter de cada paciente, é um personagem de cada estória.

No momento anterior ele era um interlocutor banal e temido. Se a inserção histórica, retomada a partir das experiências primárias, é realizada e desvendada, o paciente passa para terceiro momento.

Dá para notar que esses momentos são encadeados, porem não cronologicamente, lembramos. Um define o outro. Um desvenda o outro.

O terceiro momento é quando, o paciente percebe integralmente o terapeuta como um outro que faz parte da sua história atual, não se inscrevendo na demanda imaginária do outro, tanto em sua estória, quanto em sua história.

É um momento de extrema delicadeza, onde a palavra ocupa o lugar da coerência, onde ela se torna mais descritiva que interpretativa, onde ela está envolvida nas significações da emoção. Ela apenas faz parte.

A memória é sentida e significada como memória.

O momento da memória torna-se quase tão carregado, como a vivência atual.

As memórias sem palavras, ganham o sentido delas. Ousamos dizer, que as palavras se tornam necessárias, aí já para dar sentido ao que nunca teve.

Nesse terceiro momento, as palavras adquirem a profundidade permitida e necessária, permissão e necessidade dados por cada paciente. Ele as coloca ou não, conforme sua necessidade.

O interlocutor psicoterapeuta é interlocutor das sensações e da palavra. É variável a necessidade de sua fala. É variável a necessidade de momentos aflitivos, prazerosos ou não.

Dá-se um curso historicamente determinado a cada via dessa inscrição. A importância é revelada junto com a necessidade.

A partir daí a palavra sai do emaranhado de anti-significações e defesas e ganha seu sentido pleno como veículo de alcance dos desejos e vontades e manifestações de necessidades.

O psicoterapeuta não é mais necessário.

O paciente pode seguir sozinho. É o momento da cura.

Os Autores

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