O R G O N i zando

Psicoterapia Corporal
e Orgonomia 
desde Wilhelm Reich

Funções energéticas:
Fundamentos para estratégias clínicas
revisado em agosto/2001

José Guilherme Couto de Oliveira

 Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.


apresentado na II Jornada Reichiana
Universidade Santa Úrsula / CRP-05

Resumo

Neste trabalho utilizo um referencial de análise sistêmica aplicado aos conceitos da orgonomia e da psicoterapia. De forma a embasar teoricamente uma escolha de uma estratégia clínica a ser adotada conforme o estado e a dinâmica energéticos do paciente, pretendo aqui analisar as funções energéticas que um organismo pode assumir na sua relação com o seu meio ambiente. As formas como a energia cósmica livre de massa pode se ligar à matéria e ser investida em um organismo vão constituir a sua estrutura, defesa, metabolismo e expressividade. O desequilíbrio entre elas vai condicionar o caráter e o sintoma, e serve como referencial para o projeto terapêutico.

Conteúdo

Da energia

Ao estudar as formas de deterioração da matéria (os bions), Wilhelm Reich inicialmente descobre uma energia biológica, que ele denomina de orgone.

No decorrer de sua obra, ao perceber na atmosfera e nas galáxias fenômenos com uma dinâmica semelhante à do orgone biológico, este conceito vai evoluindo para o de uma energia cósmica primordial livre de massa da qual a energia biológica, o envoltório de energia orgone atmosférica da Terra e todas as demais funções do universo seriam derivadas.

Portanto, ao falar de energia orgone, devemos distinguir entre a energia orgone cósmica primordial livre de massa e as suas manifestações ao se ligar à matéria, como a bioenergia e o orgone atmosféricos.

Da entropia[1]  ou indisponibilidade energética

Reich percebeu um caráter organizador na energia orgone que a distingue das demais energias, que têm uma tendência entrópica de caminhar para uma desorganização e uma homogeneidade. O conceito de organização geralmente envolve a percepção de um significado, pois quando não se percebe um sentido na heterogeneidade, a diversidade é vista como acaso ou como caos, não como ordem.[2] Reich chegou mesmo a reconhecer um comportamento prenhe de significado na energia orgone:

"[The basic antithesis of OR and NR] (...) had brought into sharper focus many seemingly insignificant assumptions regarding cosmic orgone energy functions such as, for example, its 'meaningful' behavior, which distinguished it from any kind of purely mechanical functioning such as electricity or magnetism.  From the cosmic OR energy ocean all other functions emerge through variation." [REICH, The Oranur Experiment – First Report, cap. VI, p.326]

Entretanto, a partir deste caráter organizador (neguentrópico) da energia orgone, e pelo fato dela fluir do menor para o maior potencial, o que aumenta a heterogeneidade gerando diversidade, ele conclui que a energia orgone invalida a segunda lei da termodinâmica (2ªLT), o “princípio da entropia”[3]Todo o sistema em equilíbrio, deixado a si mesmo, tende à homogeneidade.

Posteriormente, Prigogine ao estudar as estruturas dissipativas, conclui que o processo organizador não é incompatível com a 2ªLT, o que ocorre é que um sistema pode se organizar repassando o adicional de entropia para o seu meio ambiente. Portanto, mesmo os sistemas orgonóticos seguem as leis termodinâmicas, pois um sistema orgonótico não pode ser nunca considerado um sistema em equilíbrio deixado a si mesmo; no entanto há um aumento entrópico envolvido, ainda que seja repassado para fora do sistema.

Se analisarmos recorrentemente o que ocorre com a entropia nos processos organizadores, tomando cada meio ambiente como um novo sistema até atingir o âmbito do universo, percebemos que a organização ocorre evolutivamente em todos os níveis, o próprio universo está evoluindo. Portanto, para onde estaria indo o excesso entrópico gerado a cada transformação? Esse excedente está vinculado à própria expansão do universo. Pois ao se expandir, o espaço se torna menos concentrado, mais difuso, portanto mais entrópico.  É a expansão do espaço que ao absorver a entropia possibilita a organização da matéria. Este é um corolário básico de ampla aplicação, para o qual devemos atentar em nosso trabalho clínico cotidiano.

Da ligação da energia à matéria

O conceito reichiano de oceano de energia cósmica ganhou uma nova credibilidade recentemente com os desdobramentos da física quântica, pois ele equivale ao conceito de holomovimento – uma ordem implícita do universo de imensa energia subjacente a todas as suas ordenações explícitas, como a matéria e as energias eletromagnética, gravitacional, nuclear, térmica, cinética, etc.

Segundo esta perspectiva quântica, em primeiro lugar, a consciência é uma espécie de portal entre o universo objetivo (a ordem explícita) e o holomovimento (a ordem implícita que corresponde ao oceano de energia orgone livre de massa), portanto tornando ainda mais pertinente o estudo dos processos orgonóticos na clínica. E em segundo, haveria uma pulsação básica no universo, entre o explicitar-se e o implicitar-se, desde o nível das partículas mais elementares, até os seres vivos ou os aglomerados galáticos.

Todo processo expressivo é um processo de explicitação de uma ordem pré-existente (uma ordem até então implícita). Todo processo dissociativo é uma cisão numa ordem mais explícita, que impede a discriminação desta ordem. O processo dissociativo vai reforçar um processo fusional em um nível mais implícito.

No seu processo de explicitação (que equivale a dizer onde ou como a energia livre de massa é investida na matéria), a energia orgone livre de massa pode assumir formas mais objetais, fixas e densas, como a matéria, ou mais relacionais, voláteis, pulsantes e sutis[3a], como os processos fisiológicos, a psique, a espiritualidade, a expressividade, a gestalt das relações grupais, etc. Portanto, abrangendo o corpo, a psique e o socius. Nunca uma forma de energia é totalmente fixa, e só é totalmente livre no oceano de energia cósmica, tudo o que existe no universo se encaixa dentro de um amplo espectro de intensidades de ligação.

Da energia mais fixada

Os estados mais estáveis em que a energia orgone livre de massa é investida em um sistema orgonótico vão constituir a estrutura[4] e as defesas do sistema, os estados mais mutáveis vão constituir o metabolismo energético do sistema. Como a fixação é sempre relativa, nada impede que uma parte da estrutura ou da defesa venha a se metabolizar (por exemplo, no emagrecimento ou na expressão direta de uma emoção de longa data reprimida), ou vice-versa. Mesmo a matéria, uma forma bem fixada, pode se desintegrar em energia.

Podemos encarar estrutura, defesas e metabolismo energético como funções que a energia orgone livre de massa pode assumir ao se ligar a matéria em um sistema orgonótico.

Mas o que seria a estrutura de um sistema e o que diferencia a estrutura das defesas? Eu gostaria de propor aqui alguns critérios para uma diferenciação funcional:

Uma estrutura ideal é aquela que permite ao organismo ou ao sistema orgonótico interagir com os estímulos recebidos do seu meio ambiente dentro de um ciclo de tensão – carga – descarga – relaxamento, com um bom aproveitamento energético que aumente não só a sua organização interna mas também a organização do seu meio ambiente, transferindo a entropia excedente para o espaço através de um processo expansivo. Para que tal seja possível, é necessário que o sistema tenha um bom potencial de amplitude de pulsação[5], ou seja, que possa suportar um grande aumento de carga sem se desestruturar. Portanto, a estrutura pode ser avaliada pelo seu potencial de amplitude de pulsação, e podemos defini-la como a capacidade de um sistema suportar uma variação de carga sem se desorganizar.

Já as defesa protege o sistema dos estímulos do meio, dissipando[6] o excedente da energia recebida através do estímulo.  Se a defesa for funcional, a energia é dissipada no meio ambiente; se for desfuncional, ela é dissipada no próprio sistema aumentando a sua desorganização interna, ou seja, enfraquecendo a sua estrutura. Enquanto a estrutura possibilita que o sistema pulse sem se desorganizar, a defesa aparece com uma resistência à pulsação que diminui a sua amplitude. Uma defesa pode se localizar tanto na fronteira do sistema, quanto internamente a ele. As defesas mais funcionais se localizam na fronteira do sistema, de forma a poder dissipar no meio ambiente a energia rejeitada.

Podemos classificar essa fronteira em três tipos:

  • Membrana (permeável): Seleciona as trocas com o meio deixando passar aquelas que podem ser metabolizadas pela estrutura do sistema, e impedindo a entrada das demais. Ela também impede que o sistema se esvaia. A membrana é um dispositivo básico para garantir um tempo de vida com mais de um ciclo de carga/descarga.

  • Blindagem (tende ao impermeável): Limita em demasia as trocas com o meio, levando a um fechamento do sistema. A curto prazo, pode proteger a estrutura de uma desorganização por excesso de carga ou de descarga; mas ao isolar o sistema, segundo o princípio da entropia, a sua organização é perdida a longo prazo, ela impede a expansão e leva o sistema fechado à degeneração.

  • Difusa (transparente ou translúcida): É a falta de limite, que não consegue filtrar os estímulos excessivos do meio. Um sistema com uma fronteira difusa é muito aberto, e pode ser destruído por invasão. Também pode ser destruído por um excesso de descarga, como ocorre com as tempestades atmosféricas, que não têm uma membrana para garantir a sua permanência; ou mesmo pode ser destruído se esvaindo, deixando de se discriminar do meio, como ocorre freqüentemente com as nuvens brancas.

Todo organismo é um sistema complexo constituído de uma estratificação de subsistemas, cada qual com a sua fronteira. Um estímulo externo excessivo pode eventualmente atravessar a fronteira mais exterior do organismo e ser barrado por uma dessas fronteiras de seus órgãos internos. Neste caso a energia do estímulo é dissipada dentro do organismo.

A conceito de fronteira não engloba apenas as fronteiras físicas, como a pele; mas depende da forma de comunicação ou de troca com o mundo. Por exemplo, pode se localizar nas muralhas do castelo, na família, na linguagem, no recalque, em um programa anti-virus, no preconceito, na lei, etc.

Quando um estímulo atravessa a fronteira e gera uma carga maior do que a estrutura pode suportar, essa estrutura se fissura, criando-se uma situação traumática e desorganizando o sistema. Por já ter atravessado a fronteira, a energia acaba sendo dissipada dentro do sistema, por isso as situações traumáticas são tão desorganizadoras, a entropia não é repassada ao meio ambiente. As situações traumáticas são sempre ligadas a uma hiperexcitação (hipercarga) que gera uma ruptura ou defesa dissociativa [6a]. Como a defesa dissociativa não é uma defesa de fronteira externa, e sim uma defesa da fronteira interna gerada pela fissão estrutural, ela vai continuar dissipando a energia dos estímulos subseqüentes dentro do sistema o que leva a uma desorganização crescente.

Mecanismos estruturais

Um bom mecanismo estrutural é a mola. Por exemplo, uma musculatura elástica, de um tônus adequado, pode suportar carga e depois descarregar-se sem  prejuízo para o organismo. Neste processo, exercita-se e com isso se fortalece. Se há um controle primário[6b] adequado, que depende de uma pausa no clímax da excitação, a descarga se dá em sintonia com o meio numa interação construtiva, com pouquíssima dissipação de energia.

Mas há vários mecanismos pelos quais uma mola pode perder a sua funcionalidade:

Ø      Se a sua elasticidade virar plasticidade, ela deixa o estímulo penetrá-la, e se molda para absorver o estímulo, oferecendo uma resistência passiva. Por exemplo, o músculo se distende mas não se retrai logo, a musculatura é hipotônica.  No lugar de carregar, a energia é dissipada na moldagem da forma, desta vez internamente ao próprio músculo. Se o músculo não puder absorver toda a energia do estímulo, entra em cena a defesa dissociativa, tão comum em organismos hipotônicos. Quando esta disfunção é dominante, o alto nível de entropia absorvido pelo sistema leva a uma desorganização da estrutura, gerando um organismo hipoorgonótico que diminui o seu grau de interação com o meio como uma forma de diminuir a estimulação recebida e assim evitar um colapso estrutural total.

Ø      Se a mola endurece, evitando a distensão, a energia é refletida de volta, perdendo-se a interação e a troca, não há um processo efetivo de carga/descarga. É o caso dos músculos hipertônicos, que, como os hipotônicos, deixam de ser estrutura para transformar-se em couraça, que é uma defesa disfuncional. Uma hipertonia mais superficial pode constituir a blindagem do sistema, mas quanto mais interno o músculo, mais essa energia é refletida dentro do sistema sobrecarregando outros órgãos (muitas vezes hipotônicos que dissipam a energia refletida).

Ø      Se a mola fissura, por excesso de carga, caímos no caso já mencionado da situação traumática gerando rupturas ou defesas dissociativas, as pulsações do sistema perdem a ressonância e a energia pulsa desordenadamente em fragmentos antagônicos.

Ø    Em sistemas complexos, a mola pode interromper o seu ciclo gerando uma descarga precipitada, sem uma pausa no clímax ou antes deste, por "medo" de fissurar a estrutura. Neste caso não há uma adequação da descarga, que segue rompendo o seu caminho num processo dissipativo, seja interna e/ou externamente.

Mas a carga orgonômica não é apenas um processo de carga energética. Ela também tem uma característica neguentrópica, propiciadora de organização e de aumento de complexidade, que disponibiliza a energia carregada. Curiosamente, quanto mais complexa uma estrutura, mais fracas as forças físicas que interligam seus níveis superiores. Ao se construir uma estrutura complexa, grande parte da energia é gasta nos seus componentes, na sua parte mais explícita; mas a disponibilidade energética é ditada por tênues ligações cada vez mais implícitas que sustentam ou liberam as demais.[7] Esse nível mais complexo, mais implícito e sutil, é também mais integrado, menos localizado em uma parte do sistema. Ele necessita dos níveis inferiores mais robustos e mais localizados para protegê-lo.

Um alto potencial de amplitude de pulsação, ou seja, um sistema bem estruturado, decorre de uma complexidade de muitos níveis. Isso porque ele precisa orquestrar muito bem a enorme carga que é suportada pelos níveis mais baixos, promovendo um equilibro dinâmico que se romperia sob formas mais fixadas. É provável que as ligações formadas no níveis mais altos dos organismos estejam muito além do entendimento pela ciência contemporânea, e envolvam ligações organísmicas muito mais sutis do que as que são hoje conhecidas. No ser humano, elas transcendem as ligações organísmicas do corpo biológico e englobam também os objetos internalizados, a linguagem, a espiritualidade, a cultura, a economia e as estruturas sociais, que compõem mecanismos de gerência da resposta a um estímulo através de um ciclo de tensão - carga - descarga - relaxamento. Daí a importância da integração cultural, econômica e social no tratamento do sofrimento mental crônico – que geralmente ocorre em indivíduos sem uma estrutura que suporte os estímulos do meio, em sistemas de baixo potencial orgonótico.

O oposto do conceito de defesa dissociativa é o conceito reichiano de "forças de integração", que na verdade se refere a relacionamentos mais sutis que interligam as partes do organismo. Essas forças de integração vão permitir novos níveis de estratificação da complexidade do sistema, melhor orquestrando os estratos inferiores e portanto reforçando a sua estrutura e propiciando um aumento do potencial orgonótico e da amplitude da pulsação energética.

Da energia volátil

Um mecanismo energético bastante abrangente é a transdução[8]. Transdução é a capacidade da energia mudar de forma. Usamos este termo para denotar que a energia pode assumir formas muito variadas, levando à passagem de uma forma de organização à outra. Todos os mecanismos fisiológicos são processos transdutivos onde a forma bioquímica da energia está em constante mutação. Há formas que retêm mais energia que outras, elas são assumidas no processo de carga, voltando às formas menos energizadas no processo de descarga. A energia que é liberada neste processo[9] é devolvida ao meio ambiente, interno ou externo. Uma boa estrutura é aquela que desenvolveu uma ampla capacidade de comportar transduções.

A energia menos fixada, a volátil, em maior movimento, mais pulsante, em transduções freqüentes, vai constituir a motilidade (onde os movimentos não são intensionais, incluindo os processos fisiológicos) e a mobilidade (os movimentos intensionais, incluindo a locomoção e a expressividade) do sistema. É esta energia mais volátil que vai participar dos processos de carga e de descarga do sistema orgonótico, e que não deve ser confundida com a energia orgone livre de massa que ainda não está ligada ao organismo.

Só em um organismo sem disfuncionalidades em suas defesas é que esta energia em movimento pode pulsar de uma forma totalmente integrada, carregando e descarregando a estrutura do sistema. Na grande maioria dos casos, o sistema comporta cisões que levam a pulsações localizadas da energia, e uma couraça interna que promove o seu amortecimento. Pode ocorrer, como em muitos psicóticos, de haver uma grande quantidade de energia em movimento sem que haja uma grande amplitude pulsátil do organismo, pois neles os movimentos não têm a integração necessária para promover a ressonância; nos conflitos eles se contrapõem e são dissipados pela couraça. Quando a couraça interna é insuficiente face ao estímulo, as pulsações descoordenadas sem um amortecimento levam ao surto. O surto é uma descarga desorganizada sobre o meio, a descarga de uma ressonância que ocorre na presença de um estímulo maior pela falta de amortecimento, e que é deslocada do seu significado pelas cisões psicóticas.

Da estratégia de atuação

Muitas das características da dinâmica energética de um organismo pode ser derivada das proporções entre:

Ø      o potencial orgonótico naquele meio possibilitado pela estrutura do sistema,

Ø      a energia investida nos diferentes tipos de defesa aqui citados, e

Ø      a quantidade de energia pulsátil presente no organismo.

Para haver funcionalidade nesta dinâmica, a energia pulsátil presente no organismo deverá ser filtrada por defesas adequadas à capacidade pulsátil comportada pela estrutura. É um desequilíbrio entre estes três investimentos energéticos que vai provocar a disfuncionalidade do organismo. Portanto, destas mesmas proporções podemos derivar uma estratégia adequada para o tratamento do organismo, buscando o equilíbrio que recupere a adequação dos investimentos energéticos.

Um exemplo ilustrativo deste modo de análise:

Quando o potencial orgonótico é baixo mas defesas estão muito concentradas no primeiro segmento, a quantidade de energia em movimento pode ser relativamente grande e provocar uma ameaça constante à estrutura do sistema.

 É um caso comum, por exemplo, nos esquizofrênicos, onde a energia flui de forma desorganizada, provocando delírios e/ou alucinações, ao mesmo tempo em que é delimitada pelas cisões, principalmente as que separam o primeiro segmento dos demais. Quando eventualmente ocorre uma maior ressonância dos seus fluxos, a amplitude da pulsação cresce, a carga aumenta, a estrutura fraca não agüenta e sofre nova fissura, mantendo o equilíbrio psicótico do sistema. Nestes casos, no tratamento é importante inicialmente possibilitar uma continência da energia antes de afrouxar a couraça localizada. Por um lado, disseminando as defesas, por outro, ajudando o excesso de energia volátil a fixar-se e construindo uma estrutura melhor.

A energia que flui desorganizadamente, limitada apenas pelas cisões, pode ser mais fixada através de um trabalho respiratório adequado[10] e também por um trabalho de holding, que ajudará na construção de uma membrana mais eficaz na contenção da energia e na filtragem dos estímulos hiperexcitantes.

O fortalecimento da musculatura do corpo será necessário para conter a torrente de energia que deve surgir quando a couraça da base do crânio perder a sua força; propiciando que a couraça se distribua pelo corpo todo quando for abrandada no primeiro segmento, de forma que o paciente possa adquirir um controle dos seus impulsos, ainda que secundário.

A melhoria da estrutura pode ser conseguida de diferentes formas, como a construção de objetos internos confiáveis através de um trabalho de holding (no qual eu englobo a interação  entre campos do terapeuta e do paciente), bem como a facilitação de uma integração sócio-cultural-produtiva do paciente que expanda a sua estrutura supra-individual. Um trabalho paralelo de estruturação cognitiva vai permitir uma expansão da estrutura no nível da linguagem. Ele também será importante na construção do aumento do potencial orgonótico ao facilitar que a energia que aos poucos venha a ser liberada do bloqueio do primeiro segmento possa ser investida no contato com a realidade, e na aceitação do prazer. A aceitação do prazer ocular é um indício de que a dinâmica começa a se reverter, pois o prazer não deslocado e aceito é fruto de um processo de tensão/carga/descarga/relaxamento suportável pela estrutura. Podem ainda ser desenvolvidos outros trabalhos de fortalecimento estrutural, como o uso de dispositivos orgonóticos, a limpeza de toxinas; o aumento do controle muscular voluntário; o treino ou construção da expressividade pelo teatro, música ou expressão artística; etc.

Uma vez fortalecida a estrutura, o controle secundário da couraça muscular pode ser abrandado devido ao surgimento do controle primário da pulsação (ainda que localizada), onde a descarga perde as suas características destrutivas.

Por outro lado, como a distribuição energética entre estrutura, defesa e metabolismo é uma resposta ao meio onde o sistema orgonótico se encontra, a possibilidade um trabalho que atue sobre o esse meio não deve ser ignorado. Me refiro aqui a agir diretamente sobre como o meio age sobre o sistema e não ao oposto. Um exemplo disto poderia ser quando o terapeuta percebe, ao ser procurado para tratar de um determinado adolescente, que naquele caso o cerne da problemática está na relação entre os seus pais e deslocar o foco do contrato para a relação do casal ou para uma terapia familiar. Outro caso seria o do processo de transformação que vêm sofrendo o atendimento público do sofrimento mental, deslocando-se do encarceramento do hospício para um atendimento ambulatorial. Mas certamente o caso mais comum deste tipo de atuação nada mais é que o próprio setting terapêutico, que periodicamente oferece ao paciente um outro meio com formas distintas de interação.

 Além dessas intervenções no âmbito do consultório, há, obviamente, aquelas de âmbito social, como as políticas de saúde mental, terapias comunitárias, toda a gama de intervenções psicossociológicas e mesmo as transpsicológicas (políticas, ecológicas, culturais, etc.).

 



Notas

[1] A entropia mede a indisponibilidade energética e está vinculada tanto à homogeneidade quanto à desorganização. Intuitivamente, para se extrair energia é necessário usar uma diferença de potencial, como entre o alto e o baixo ou entre o quente e o frio; também percebemos facilmente que é mais muito difícil aproveitar a energia de um sistema "bagunçado" do que a de um sistema organizado.

Observação técnica. Originalmente o termo entropia origina-se na termodinâmica clássica e se referia especificamente ao conceito de uma quantidade de calor não transformável em trabalho por unidade de temperatura. Isso pode ser equiparado a uma "desordem" molecular. Mas o que constitui a articulação entre a medida da ordem e o calor não utilizável, é apenas a dimensionalidade de uma constante da fórmula termodinâmica da entropia, de forma que, mais recentemente, o uso do termo entropia tem-se generalizado transpondo-se para fora do domínio da termodinâmica clássica e vem ganhando terreno nos estudos da complexidade. [Mais detalhes em ATLAN, H. - Entre o cristal e a fumaça, p.32]

[2] O caos é uma medida da ignorância do observador.

[3] REICH, O Éter, Deus e o Diabo, cap. IV

[3a] Conceituamos como sutil, aquilo que é mais relacional do que propriamente objetal, portanto algo mais próximo a uma ordem implícita do que de uma ordem explícita.

[4] Inicialmente uso este termo estrutura em seu sentido mais coloquial, para logo vir a conceituá-lo mais formalmente, de uma forma distinta do o faz o estruturalismo ou a psicanálise.

[5] O potencial de amplitude de pulsação é um conceito próximo ao de potencial orgonótico que, segundo Reich, é a diferença de potencial entre o nível de capacidade orgonótica (máximo de carga que o sistema pode suportar) e o nível energético do ambiente.

Entretanto, considerando-se que há muitos indivíduos que funcionam na hipercarga com descargas interrompidas, como os cronicamente inspirados e os ansiosos em geral, prefiro conceituar o potencial de amplitude de pulsação como a diferença entre o nível de capacidade orgonótica e o nível energético após a descarga. Portanto o potencial de amplitude de pulsação é a parcela do potencial orgonótico que não está impedido de pulsar pelas defesas do organismo.

No caráter rígido, onde o potencial orgonótico é alto, mas a descarga é interrompida, de modo que ao potencial de amplitude orgonótica é baixo, esta diferenciação de conceitos é significativa. Tratando-se de outros tipos de caráter muitas vezes podemos desconsiderar esta diferenciação para evitar um preciosismo.

[6] Um processo é dissipativo quando ele espalha a energia, tornando-a difusa e indisponível. O atrito é o processo dissipativo mais comum. Os processos dissipativos são muito entrópicos, eles desorganizam, aumentam a homogeneidade, e geralmente levam à repetição. Eles promovem um amortecimento que limita a ressonância das pulsações.

[6a] Uma ruptura que ao absorver a energia do estímulo, "protege" o resto do sistema; mas o termo pode ser também tomado no seu sentido psiquiátrico.

[6b] O movimento espontâneo depende de um controle primário capaz de efetuar a coordenação que dirige o movimento. Por exemplo, o recém nascido ainda não adquiriu um controle primário necessário ao andar. Consideramos controle secundário, aquele controle substituto que compensa a falta do primário, levando à perda da espontaeidade do movimento

[7] Se tomarmos a Internet por exemplo, ela se constrói sobre links de hardware, mas é operacionalizada por sutis protocolos de software, por sua vez regidos por regras de mercado ou acordos sociais muitas vezes bastante implícitos.

[8] A mola também não passa de um mecanismo de transdução, que converte a energia do movimento em energia potencial (carga) e vice-versa.

[9] É a energia que coloquialmente chamamos de energia livre, mas que é distinta da energia orgone livre de massa, ela ainda é uma energia numa forma fisiológica ainda que numa forma menos organizada.

[10] Respiração abdominal sem esforço, mas com a intenção de expirar mais plenamente. Geralmente é feita sentada. [D.Boadella/J.Stolkiner]

Bibliografia

Livros

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Artigos

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