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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira
 
 

 

Ética e terapia reichiana

por Frinea Brandão


© 1997 - Direitos Autorais Reservados - A autora autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/etica.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.

 

Reich foi um cientista interessado nas questões humanas. Desde a faculdade de medicina seu interesse se voltou para a problemática sexual e emocional das pessoas. Inquieto, buscou alternativas ao saber acadêmico. Como estudava e morava em Viena nos anos vinte, a primeira alternativa que obteve foi a então revolucionária psicanálise.

Sua opção de estudo, sempre por formas sistemáticas e sérias, casou com as exigências que a psicanálise faz para ser conhecida. Elegeu-a como base teórica para a compreensão da sexualidade humana. Foi um psicanalista estudioso e esforçado durante alguns anos até ser expulso do movimento por questões ideológicas. Nessa ocasião a psicanálise, pela ameaça que sofria dos nazistas, estava se fechando. Figuras inquietantes e questionadoras como Reich poderiam ser tomadas como perigosas. Depois de um curto processo foi sumariamente expulso.

Na Europa nazista era comunista. Para o movimento comunista, que também tentava se proteger do nazismo, era um psicanalista burguês. Se vivesse hoje, no final desse século, talvez se revelasse um psiconeuroimunologista.

Reich pode ser considerado um autor do século XXI. Ele tentou articular a psicanálise, o marxismo, a biologia, a antropologia, a ecologia, a física. Criou conceitos, evidenciando os saberes que estava envolvido. Por exemplo: no período da análise do caráter a evidência era a psicanálise numa perspectiva diferente. Adotou a leitura do corpo e da gestualidade. Criou uma metodologia, que hoje em dia podemos chamar de focal. Seu foco temporal era a resistência em seus vários ângulos transferenciais. A tentativa de leitura do latente era através do gesto, do maneirismo gestual, principalmente aquele maneirismo mecânico. Esses eram os traços de caráter: o que é repetido sem consciência. O artificial possuído por aquele que o vê de forma natural: "Eu sou assim".

O aprofundamento da análise do caráter levou à vegetoterapia. Ampliou a análise do caráter. Localizou a memória desse latente no corpo. Dotou essa memória de um dinamismo versátil, que variava entre a estagnação e o movimento sem barreiras. Dotou o corpo de energia. Não existia só a representação da libido. Existia o caminho da libido. Esse caminho mapeava o caráter. O corpo era um mapa, que ajudava o vegetoterapeuta a ajudar seu cliente a encontrar o seu próprio fluxo energético.

A orgonomia surgiu da localização dessa energia biológica na totalidade do que é vivo. Dotou essas observações de uma conceituação própria. Descobriu propriedades. Essa descoberta o distanciando do seu sonho em vez de aproximá-lo - a psicanálise que virou ciência.

A descoberta do orgon foi feita através de vários experimentos. A divulgação desses experimentos foi ingenuamente divulgada num período de grande repressão e histeria nos EUA, onde então vivia. Estamos falando do que hoje é conhecido como "macartismo". Essa conjunção de intolerância, ingenuidade e inabilidade o jogou na prisão e o julgou louco. Esse julgamento foi feito pelos homens representantes da lei. Os representantes da ciência o ignoraram.

A ciência que não é isenta da contaminação histórica, ano após ano perde tempo reformulando sua linguagem. Não podemos ler um autor que morreu em 1957 e nasceu no final do século passado como se estivesse produzindo hoje em 1996. Ele é impregnado pela linguagem científica e ideológica de sua época.

Reich como qualquer outro autor não foge a essa circunstância. Dentro das expressões costumeiras à sua época, podemos encontrar conceitos avançados para hoje, teorias que ainda não foram pensadas e conceitos e práticas já amplamente adotados como o de diátese usado pela medicina que pode ser próximo ao de biopatia usado por Reich. O legado que nos deixou, portanto, é útil e atual.

Como homem e cientista tinha sonhos. Talvez seu sonho maior fosse o da globalização em termos de utopia científica, o da solidariedade em termos de utopia cultural, e o da felicidade relativa em termos da utopia individual.

Um outro grande sonho seu foi o de ser reconhecido pela ciência enquanto cientista. Por essa entidade, a ciência, sempre instituída. Por ser instituída, ela pode ser apropriada de modo distinto por cada grupo populacional em sociedades plurais. Ela também carrega em si, implícita, morais. Uma delas pode ser: o bem, "a verdade científica", o mal, "o que não é verdadeiro". Reich, em vez de ser reconhecido, foi julgado como o mal, o que não é verdadeiro.

A ciência, instituída, é também o espaço determinado para administrar o saber oficial e acreditar paradigmas de intervenção, as técnicas. Isso não a faz "neutra". Há a impregná-la, em nossa tradição, dentre as várias morais, uma moral em função hegemônica, que age quer como tese, como antítese ou como referencial. Por ser também dada a ela a tarefa de oficializar fundamentos utilizados na mediação do bom e ruim ao bem e mal, oficializou isso a respeito de tudo aquilo que Reich queria reconhecido. Até hoje Reich é lido como um autor excêntrico que cria teorias excêntricas. Talvez a sua excentricidade maior foi a de querer manter sua dignidade.

Se a ciência se representa também através da moral, podemos dizer que a ética seria a parte sensata dessa moral, pois a ética é a filosofia da moral, a sua parte pensante. A moral não tem tempo de parar para se pensar, ela precisa se dividir para poder se pensar. Dessa divisão surge a ética. A moral e a ética podem nascer da empatia. A capacidade empática pode ser a base do estabelecimento de códigos morais, legais e éticos.

Assim como a capacidade de nos colocar no lugar do outro está na base de profundos códigos éticos a cristalização dos códigos e o distanciamento do sentir podem transformar grande parte da moral em burra. Essa parte que se constrói basicamente de tradições, baseadas em repetições sistemáticas ditadas pelos momentos de dominação, pode se fixar em momentos de dominação. A mesma parte também pode ter mais lados. Um deles é construído para ordenar, organizar um determinado momento. Momento-espaço que é o do reconhecimento da alteridade. Essa função do ego, para se fazer valer tem que estar em contato com os sentimentos e as sensações corporais, só dessa forma pode existir a mediação do limite com a lei. Pode existir empatia. Portanto, se há maiores momentos de contato, há maiores quantidades de momentos éticos.

Ética é também logos e consciência. Nesse saber consciente o reconhecimento da alteridade acontece a nível da percepção plena, potencializada, isso é a união das sensações corporais, dos sentimentos ajudando a decodificar de forma rápida e precisa os estímulos do meio ambiente. Essa percepção origina o comportamento. Esse é o ethos e o pathos, sobredeterminados que são, muitas vezes vistos compartimentalizados, em conflito, quando não há correspondência dessas funções. São, todos, nossos objetos de reflexão, e ainda da filosofia, da história, da sociologia, da antropologia, assim como das ciências físicas.

Muitas vezes quando pensamos em ética pensamos ou na ÉTICA, na moral comandada socialmente (um exemplo muito comum é o "que eles vão pensar de mim"), ou ainda é pensada e relacionada à noção de bem e de mal.

O Bem e o Mal como valores universais é central nas religiões, como conceito relativo ao do ser continente/contido, matéria determinante/determinada, Deus.

O bem e mal funcionando como pares dialéticos, muitas vezes complementares, é construção coletiva a ordenar as sociedades. Entre o bom e ruim e o bem e mal, nós administramos conflitos, distribuímos privilégios, enunciamos moral. Tudo isso em nome da criação de momentos sociais melhores, felizes.

Quanto maior a utopia prometida de felicidade total, maior o despotismo. Prometer a total felicidade, o paraíso significa arregimentar escravos e criar privilégios. Eles podem ser baseados na ilusão do ter, que muitas das vezes balança entre os dois teres: a riqueza e o poder. Nasce da adoração da própria imagem, do narcisismo, em que em sua forma extremamente cristalizada e extremamente distanciada da ética, está a psicopatia. Ela é o extremo da falta, no sentido da ligação empática, que Reich chamou de contato.

Os saberes em sua forma distinta podem ajudar a combater os poderes únicos, tanto do psicopata que mata para satisfazer seu reflexo especular, quanto do ditador que dita o modo de vida de um povo. Eles, como dizia Reich estão apoiados por nós, seja pela omissão, seja pela participação direta. Se acreditamos na justiça pronta e não a construímos diariamente, quotidianamente, como um hábito introjetado, estamos criando monstros despóticos, que podem nos matar na próxima esquina. Monstros incapazes de contato e de solidariedade. Fazer justiça, estabelecer contato, deveria ser como escovar os dentes, ou comer.

Isso para nós é ética, a ética quotidiana. Como nos mostra Reich se ela não for introjetada como um hábito, o seu brilho é falso e sua promessa é a dos ditadores. A distância do cotidiano e consequentemente das sensações corporais nos distancia da natureza das coisas, do seu direito e da sua razão de existir. A fisiologia da dor é semelhante à do prazer. Nós a codificamos, damos sentido a eles, por isso devemos ter também a coragem de nomeá-los e diferenciá-los corretamente. Reich o fez, e com isso afirmou ser possível a felicidade quotidiana, a potência orgástica. Só um ser potente é capaz de ter momentos de felicidade, que só existe por formar um par funcional com a infelicidade.

Para Reich, alcançamos essa potência de uma forma muito simples: basta estarmos em contato. Primeiro e simultaneamente conosco, depois com o e os outros. Podendo isso, podemos ter a clara percepção que a natureza é dominante e o universo é lei. A ligação se faz através da poesia do movimento energético com seus fluxos e refluxos costurando todas as micropartículas, formando as macropartículas num mosaico que lido de forma global quer dizer e expressar unicamente amor.

Através dessa compreensão ele tentou provar cientificamente que a cultura é a última aquisição dos sistemas biológicos, da vida. Somos animais gregários. No entanto, o universo que percebemos quando corremos atrás de "verdades científicas" é, muitas vezes percebido apartando o cosmos do social. Quando isso acontece, no cosmos, fica somente a teogonia da cosmogonia. Na sociedade, o indivíduo do coletivo. Na pessoa, o sentir do perceber. Nessa bipartição perdemos o sentido ético que Reich propõe, que é a visão do todo, suas confluências e influências sobre nós.

Esse sentido é apreendido pelas nossas sensações amorosas transmitidas pelo nosso corpo. As sensações amorosas são apreendidas da percepção das nossas correntes orgonóticas. Essas correntes orgonóticas é o que nos liga a tudo que é vivo, e em última instância ao universo.

Interpretamos através das nossas pulsações orgonóticas o universo, podendo chamá-lo de cosmos. Ele deixa de ser o temido todo unitário, teogônico, bipartido em bem e mal. Uma das expressões da concentração de energia em poucas funções narcísicas, é a de nos colocarmos à semelhança do mais poderoso Teo. Isso nos faz perceber superiores aos outros animais, quando somos apenas umbigo da nossa insignificância. Isso pode levar a ser a coisa, o isso que afasta em vez de ser a coisa, o isso, que aproxima para que possamos sentir a nossa pertinência, as nossas propriedades de seres viventes, onde se compõem espaços, matéria, energia.

Vemos que o espaço se coloca em um tempo, preenchido por matéria, energia ou "nada", assim como o tempo não pára e é circular. Não utilizando a teogonia como objeto de conhecimento e de crença, criamos novos valores éticos onde a matéria não é somente objeto, onde não há determinação do Bem e do Mal. O sujeito deixa de ser por ação transcendental. Passamos a entender através da cosmogonia que a matéria é positiva, ordenadora, possuidora de sua própria energia.

A visão ética quando assume essa pertinência muda. Passa a haver mais responsabilidade e compromisso pelo que é a sua extensão, pelo que se ferido ou descartado faz parte de você. Onde você é extensão dessa parte. Onde a sociedade, quando sujeito, passa a ser maior que o coletivo de indivíduo, aí seu anti-sujeito. O sentir pode ser tido, então, nesse contexto, como o exercício de afirmação desse indivíduo e a sensação, como o todo-poder da ordenação positiva do indivíduo na sociedade. O bem e mal poderia ser ampliado e virar o coletivo de bom e ruim. A percepção passa a vir do sentir. Amplia e clareia a visão da realidade. À função de ordenar é essencial o sentir-perceber. O patamar do social para o individual se faz por negação: "O meu direito acaba onde começa o do outro".

Ampliando nossa capacidade de sentir, deixa de ser só necessário a divisão maniqueísta do bem e mal, podendo percebê-los como extensão e qualidades de expressão momentânea de comunicação. Essa linguagem é facilmente adquirida através da empatia. O canal empático é aberto para o outro e para o universo, respeitando os devidos momentos de espaço e tempo. Esses momentos guiados pela nossa percepção. E para consubstanciar a Ética, os conflitos deixariam de ter como local privilegiado de resolução, parte do psiquismo, que é o narcisismo. Assim a natureza, conflituosa em essência, cultura ou meio ambiente, correriam menos riscos de serem "dominadas" pelo imaginário. Poderia se extinguir o "controle" narcísico da diversidade pela percepção e compreensão, e a extinção, por decreto, da fatalidade. Isso sendo recuperado dentro de nós cumpriria a função de livre arbítrio, ou cunhando outra expressão de livre-amor, de livre-compreensão, de livre-paz em contraponto à prisão que o medo e a ira nos impõe. A dominação+controle passaria a pertencer ao campo da hegemonia.

Ganharia a Ética, outro prisma o de sentida, acomodada, refletida e respondida a todo momento subjacente a toda dinâmica relacional. Dinâmica, onde não há a percepção do viver estático ou irrefletido. Onde não cabe percepções estanques no existir do eu-eu, o eu-tu, o eu-ele, o eu-mundo. Onde o caos, dinâmica da existência, é ordem. Ela imaginada poderia relacionar o mundo às mais diversas e particulares sensações-percepções, microcosmos desse mesmo mundo. E nós imaginaríamos, invadidos nossos sentidos, doando imagem ao que já é, mesmo sem nossa imagem. Adquiriríamos assim a liberdade verdadeira de construir uma Ética, permeada de sorte inumerável de éticas. Estando em concordância seria ouvida e ponderada. Assim também poderia ser pensada a ciência, a cultura, o individual. Com ressonância. Tendo a responsabilidade livre de ajuizarmos valores. Valores de que nossa existência apreende. Apreendemos, imaginamos. Nossa imaginação obtendo resposta, quem sabe diminuindo o índice de loucura. A muitos entes aporemos a imagem de bem. Pertencemos aos entes, eu-matéria, eu-imaginário, não-eu, ou o que, diálogo. Redes de diálogos. Uma grande conversa, sentida e percebida. E, assim teríamos bons juízos de bem.

Grande parte dos homens perderam ou nunca tiveram seus bons juizes de bem, perdendo com isso o que a vida lhes reservou criando para si um espaço fechado, guardado, solitário (pôr mais rodeado de teres e seres que ele possa estar). A solidão é o símbolo desse afastamento ou destruição da natureza em si. Mata até os sonhos transformando-os em delírios incompreensíveis.

O homem é o animal que mais vive, que mais inventou, em suas diversas formas de se esconder do medo. Inventou quando ameaçado pelo medo, armas. Inventou quando entendeu que o medo exigia proteção, o conforto.

Hoje que grande parte da população possui conforto, passa a temer menos a natureza e a se voltar para sua proteção, embora continue a temer, como há séculos, a outra parte da população que não tem conforto.

A história nos mostra que o nascimento da Ética coincide com o nascimento do agrupamento humano. Se ela fizesse parte do cotidiano, e se nesse cotidiano houvesse contato algumas coisas, talvez, já poderiam ser reordenadas: medo e a fuga da natureza, o sexo e a tentativa de encontrá-lo, a relação pais passivos e filhos violentos, a relação pais violentos e filhos loucos, a relação violenta dos adolescentes, etc..

Então, procurando entender Reich estamos, tentando nos aprofundar num caminho temido, novo e pouco entendido, que é o das relações humanas afetivas sexuais, que não se constróem sem ética, mas que podem começar a ser abordados enquanto problemas com a ética do cotidiano.

BIBLIOGRAFIA

Sobre a Autora

Frinea Brandão tel: (021) 225-0562
Psicóloga, psicoterapeuta reichiana, coordenadora do CeReich onde forma terapeutas.
 
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