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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira
 
 

 

Em busca de Eros: 
a "democracia natural do trabalho" 
e a relação entre poder e afetividade
no pensamento de Wilhelm Reich

André Valente de Barros Barreto

Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de Ciência
                                        Política do Instituto de Filosofia de Ciências Humanas da
                                        Universidade Estadual de Campinas, sob orientação da Prof.a.
                                        Dra. Amnéris Ângela Maroni, em 6 de agosto de 1997.
 

Sumário

Esta dissertação de mestrado tem por objetivo discutir a relação entre poder e afetividade. Desde os gregos a política
é marcada pela racionalidade, ficando as paixões numa condição secundária ou mesmo de oposição a ela. Esta
concepção "racionalista", que vê as paixões como um obstáculo à política e à sociabilidade, constitui-se numa
matriz do pensamento político ocidental, presente também nos autores modernos. Para discutir esta questão, utilizo
o conceito de "democracia natural do trabalho" (DNT) de Wilhelm Reich, por meio do qual faz-se possível uma
crítica à concepção racionalista de política através do resgate do universo da subjetividade humana. Reich mostra o
papel fundamental dos afetos - tanto em sua dimensão individual como coletiva - para a constituição sócio-política
dos Homens e que este universo subjetivo constrói-se no campo amplo das relações sociais, no campo da cultura. A
crítica à política como crítica à cultura.

Inicio a dissertação com uma breve apresentação de Reich, tomando por referência seu princípio funcional entre
psique e soma, conceito que estabelece uma verdadeira revolução nas psicoterapias, instituindo o corpo no setting
terapêutico, e levando Reich ao rompimento definitivo com a psicanálise. O princípio funcional de Reich nos
permite conceber um ser humano integral, composto de razão, afeto e corpo, em oposição ao dualismo cartesiano
reinante no pensamento ocidental.

No campo metapsicológico Reich elabora sua contestação ao modelo racionalista, que opõe razão e afetos, através
da crítica à teoria freudiana da cultura. Freud sustentava que a civilização se construía sobre o domínio das pulsões
humanas e que, portanto, não haveria cultura sem repressão. Questionando a universalidade do complexo de Édipo
e a pulsão de morte, os dois fundamentos centrais da teoria cultural de Freud, Reich sustenta a possibilidade de uma
cultura não repressiva que respeite e favoreça as pulsões. Como pano de fundo desta discussão, encontra-se o
problema da origem do mal. Opondo-se a Freud que, a partir de 1920, situava tal origem no campo pulsional,
Reich desloca o mesmo para o campo social, para uma determinada cultura patriarcal-autoritária que busca o
domínio político e econômico a partir da repressão sexual.

Seguindo a noção de uma natureza boa, harmônica e racional, Reich aproxima-se do ideário romântico de
Jean-Jacques Rousseau. Tal como este, Reich acredita numa essência humana "adormecida", da qual os Homens
teriam afastado-se em função de milênios de repressão sexual. É o resgate desta essência, que para Reich responde
pelo nome de pulsão, que permitirá aos Homens reconectar sua natureza e recuperar sua harmonia corporal,
racional, afetiva e espiritual. O mal, assim, tem sua origem no "exterior", no campo social dos Homens em relação,
não na natureza, e institui-se no momento em que estes reprimem seus impulsos primários, sua natureza interna.
Ao reprimir a natureza humana, os Homens degeneram-se, suas paixões deliram e sua razão crê raciocinar. Daí a
situação caótica e doentia em que vivem.

Se o mal tem origem no "exterior" cabe à cultura mudar. É preciso transformá-la no sentido de acolher os fluxos e
leis biológicas dos seres humanos. Em oposição à matriz racionalista-mecanicista, cujo modelo é a máquina, Reich
defende uma nova matriz de fundamentação biológica, baseada na natureza. A isto chama de DNT, uma tentativa
de reflexão sobre uma nova cultura que respeite a natureza humana, promovendo um Homem integrado entre
razão e afetos, capaz, portanto, de assumir suas responsabilidades pessoais e sociais, dando vazão a novas formas
de relações de poder não neuróticas. Esta nova cultura, portadora de uma nova política, constrói-se no campo dos
indivíduos. É pelo processo de interiorização que o indivíduo pode recuperar sua essência, reequilibrar suas pulsões,
condição para chegar a uma razão sentida e uma nova sociabilidade.

Ao mostrar as origens sociais da subjetividade humana e seu papel na consolidação das relações sociais gerais que
sustentam os sistemas políticos, Reich estabelece o que podemos chamar de os fundamento de uma psicologia
política, cuja mais importante contribuição é a de não mais dividir o ser humano entre mundo subjetivo e objetivo e
criar uma relação dinâmica entre indivíduo (psicologia) e sociedade (sociologia e política).

 
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