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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira

Novas Perspectivas Clínicas em Orgonoterapia e Psicossomática

Ernani Eduardo Trotta

Originalmente publicado no Jornal Nexus, nº6

A orgonoterapia é uma abordagem terapêutica psico-corporal criada por Wilhelm Reich a partir da psicanálise. Esta abordagem tem sido aperfeiçoada pela criação ou incorporação de novos métodos clínicos. As técnicas de foto-estimulação e o método EMDR são alguns recursos que vem sendo adaptados para utilização conjunta em orgonoterapia.

As terapias psico-corporais, desenvolvidas a partir dos trabalhos de Wilhelm Reich, representam um avanço em relação às psicoterapias puramente verbais, por possibilitar melhores resultados terapêuticos. Mas ainda podem evoluir muito. A abordagem reichiana tem sido aperfeiçoada pela incorporação de novos recursos clínicos criados a partir dela mesma ou adaptados de outras especialidades terapêuticas. Neste artigo comentamos algumas perspectivas de utilização da técnica orgonoterápica de foto-estimulação, associada ao método EMDR.

O método EMDR ("Eye Movement Desensitization and Reprocessing"), que significa dessensibilização e reprocessamento através do movimento ocular, foi criado em 1987 por Francine Shapiro. É atualmente considerado por muitos como a mais importante descoberta da década de 90 no campo das psicoterapias. Consiste em associar certas técnicas de estimulação corporal bilateral, particularmente a movimentação lateral dos olhos, a um conjunto de intervenções verbais conduzidas pelo terapeuta segundo um roteiro protocolado pela autora. Baseia-se no fato de que as desordens pós-traumáticas e sintomas psicopatológicos em geral agregam imagens, sentimentos e cognições negativas que não puderam ser devidamente processados devido a desequilíbrios bioquímicos e elétricos resultantes do stress que acompanha o evento traumático, permanecendo como que "congelados" no cérebro em sua forma original.

As descobertas de Le Doux, Henry, van der Kolk e outros pesquisadores indicam que as desordens de stress pós-traumático devem-se a alterações funcionais em algumas estruturas do sistema límbico e do córtex cerebral. A ativação da amígdala e a liberação de noradrenalina e outros neuro-hormônios durante o stress, inibem o hipocampo e os neurônios GTF e entorpecem certas áreas do neocórtex, prejudicando a interpretação cognitiva do evento traumático. As memórias são guardadas sob forma de sensações, imagens visuais e padrões motores ficando prejudicada sua representação semântica. Isto gera desajustes comportamentais e emocionais. O indivíduo perde a capacidade de diferenciar, por exemplo, entre o perigo que representa um leão solto no quintal de casa ou um leão na jaula do zoológico.

A intervenção rítmica do EMDR promoveria uma reconexão funcional entre as diferentes áreas dos dois hemisférios cerebrais, permitindo que estas informações fossem reprocessadas e integradas. Foi evidenciado por tomografia PET que após o tratamento com o método ocorre uma ativação de diversas áreas cerebrais incluindo a área de Broca, relacionada à fala, e um aumento da atividade de fibras do corpo caloso, que comunicam os dois hemisférios cerebrais.

A utilização de intervenções verbais associadas a técnicas de intervenção corporal, como a movimentação dos olhos, não é em si uma novidade, pois em orgonoterapia isso já é utilizado há mais de 30 anos. Porém o que o método EMDR traz de novo é a sistematização destas intervenções verbais, agregando memórias visuais, afetivas e cognitivas, e o fato de conduzi-las em seqüência rápida de forma simultânea ou alternada com as intervenções corporais. Embora a história da criação deste método não tenha qualquer relação com a orgonoterapia, a sua similaridade com a abordagem psico-corporal reichiana permite associá-lo a algumas de suas técnicas corporais, principalmente a técnica de foto-estimulação ocular.

O método terapêutico de estimulação ocular com a luz em movimento foi criado pela orgonoterapeuta Barbara Goldenberg Koopman, discípula de Reich e Baker. Consiste em propor ao paciente que acompanhe com os olhos a luz de uma pequena lanterna que o terapeuta movimenta em trajetórias e ritmos específicos, permitindo que a luz incida sobre os olhos em diferentes pontos do campo visual. Esta técnica tornou-se clássica pelos resultados que proporciona no tratamento de diversos distúrbios psico-emocionais e somáticos.

Nos últimos anos, pesquisadores de diferentes especialidades criaram outras técnicas de foto-estimulação. O livro "Light Years Ahead" publicado em 1996 por Brian Breiling e Lee Hartley apresenta uma coletânea de métodos de tratamento psicossomático ("mindbody healing") que utilizam a foto-estimulação ocular, confirmando sua eficácia no tratamento de grande número de doenças. Embora o livro não comente especificamente a foto-estimulação de B. Koopman, a comprovação dos efeitos terapêuticos de técnicas similares não só confirma como também fundamenta seus efeitos com base em descobertas recentes no campo das neurociências. Os efeitos terapêuticos desta técnica explicam-se por diversos fatores associados, que podem ser resumidos em 4 itens:

O estímulo à conexão funcional entre os dois hemisférios cerebrais e a ativação dos neurônios GTF, reproduzindo atividade elétrica cerebral similar ao sono REM são duas importantes similaridades entre esta técnica e o método EMDR.

A técnica original sugere o emprego da luz branca. Porém, considerando a importância da visão a cores na espécie humana e sua vinculação com nossas funções afetivas, desenvolvemos pesquisas clínicas com luzes de cor azul, verde e vermelha. A escolha destas cores baseia-se no fato de existirem três tipos de células na retina, chamadas cones, cujo máximo de absorção de luz corresponde a cada uma destas cores. A estimulação de cada uma delas gera impulsos nervosos que são conduzidos a diferentes regiões do cérebro. Os resultados clínicos obtidos, publicados na Revista da Sociedade Wilhelm Reich RS no 2, pg. 40-54 (1998) indicam que cada cor é seletivamente mais eficaz no tratamento de determinadas disfunções psico-emocionais e somáticas.

O trabalho com a luz favorece a evocação de memórias de eventos com importante significado emocional, e o acesso a conteúdos do inconsciente. Isto é particularmente freqüente quando sugerimos ao paciente que durante o trabalho com a luz procure relatar as memórias, imagens e expressões relacionadas a estes episódios. Sua utilidade na elaboração e reprocessamento de eventos traumáticos parece ocorrer por mecanismos similares aos descritos por Shapiro, com o método EMDR. E é justamente na forma de conduzir as intervenções verbais, quanto à sua seqüência e sistemática, que o método EMDR pode contribuir para a obtenção de melhores resultados com esta técnica. Por outro lado, o estímulo luminoso parece produzir efeitos terapêuticos mais amplos e eficazes do que a simples movimentação dos olhos. Logo, cada um dos métodos tem algo a contribuir para o enriquecimento do outro e sua utilização conjunta pode ampliar os recursos da abordagem terapêutica reichiana.

O Autor

Ernani Trotta é orgonoterapeuta e possui treinamento em EMDR. Coordena grupos de formação em Terapia Reichiana no Rio de Janeiro e em Porto Alegre há cerca de 10 anos. Telefones para contato: (021) 539-1231 e 527-5201.

 
 
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