O R G O N i zando

Psicoterapia Corporal
e Orgonomia 
desde Wilhelm Reich

Na vertigem do capitalismo onde estamos nós?

Frinéa Brandão

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As coisas são de natureza contrária, isto é,
não podem coexistir no mesmo sujeito,
na medida em que uma pode destruir a outra.

                Spinoza, Ética III

Honestidade x desonestidade
Competitividade x solidariedade
Ganância x generosidade
Medo x amor
Covardia x coragem
Desrespeito x respeito
Vaidade x humildade
Violência x delicadeza
Preguiça x diligência
Desânimo x ânimo
Raiva x paciência
Mesquinharia x generosidade
 Tristeza x alegria

 

 

Conteúdo

Heidegger no Ser e o Tempo diz: “Ninguém é si mesmo. É o reino do a gente. A gente vive, a gente se ocupa, a gente é. A gente não é ninguém. Esse tempo, a gente o perde”.E é acrescentamos: na maioria das vezes estamos somente, vivemos em espaços divididos com outros, fazendo concessões de nós mesmos, doando pequenos ou grandes fragmentos do nosso ser. Ou, então, nos resguardando de tal forma que impossibilitamos qualquer tipo de troca afetiva. Mas algumas vezes verdadeiramente somos e o tempo pára. Aí somos nós. Com, em contato com nossa pura essência. Donos do nosso tempo. Interagindo, trocando. Não tendo necessidade de ceder ou fugir, em suma sendo ativos, sujeitos, construindo nossa história, escolhendo nossas ideologias.

Já nessa vertigiosidade de nosso tempo, grande velocidade Fórmula Um, corremos o risco de nos perdermos de nós mesmos e de jamais recuperarmos o nosso ser.

Reich nos ajuda a conectarmos com o nosso cerne biológico. Morada do amor, da paz, da potência e principalmente da alegria.

Clément Rosset em Conexões diz: “Certamente, o homem alegre alegra-se com isso ou com aquilo em particular; mas ao interrogá-lo mais, descobre-se rapidamente que se alegra, também, com outro isso e com outro aquilo, e ainda com essa e aquela outra coisa, e assim por diante ao infinito. Seu regojizo não é particular, mas geral: ele fica alegre com todas as alegrias”.

Vemos que o capitalismo perverso que estamos inseridos e produzindo fabrica determinadas demandas que na maioria das vezes estão longe de qualquer coisa que tenha parentesco com qualidade de vida. A ênfase é dada em objetos supérfluos, luxuosos. Ignora com isso necessidades básicas da grande maioria. A pobreza é insignificante e sem direitos.

Esse capitalismo vai ainda mais longe. Produz um discurso hegemônico através da tirania do dinheiro e da informação. Produz ideologias tendo como alicerce a ideologia já internalizada no nosso pré-consciente. Essas ideologias rápidas nós as introjetamos a partir dessa base internalizada. Isso pode acontecer com uma rapidez vertiginosa. Basta uma mensagem subliminar numa determinada novela ou filme, por exemplo. O nosso aparelho psíquico móvel, dinâmico e carregado energeticamente muda como um caleidoscópio de cores ricas e variadas. Muda como a natureza. Em algumas vezes de acordo com ela. Essa mudança é sutil. Se nós olharmos atentamente para uma montanha, que parece totalmente fixa percebemos que varia sutilmente. Percebemos essas variações de acordo com o movimento das cores, do vento, do som. Assim funciona nosso aparelho psíquico na maioria das vezes. Ele é a montanha inserida num mar de energias e emoções. As ideologias são apenas as luzes artificiais que colocamos nessa montanha para iluminá-la, mas que na maioria das vezes é somente o que vemos, essa luz artificial. 

Para que isso se estabilize, para que essa ideologia ou os anúncios dela seja internalizado por nós, precisamos produzir desvalores para manipularmos as relações sociais, as relações psíquicas, nosso mundo interno, nos construirmos para sermos adequados aos produtos produzidos. Para que, por exemplo, compremos sem necessidade. Voltando à montanha isso seria como cortar suas árvores, construir coisas nela.

 Por que será que caímos nesse jogo de destruição? É ainda dentre outras coisas nosso biológico nos chamando. Nos iludimos que somos os animais dominantes. Nos iludimos que participamos da classe que decide nossos destinos. Comprar saiu do ramo das obrigações para entrar no ramo das diversões.

Para que continuemos tontos de tantas palavras a nossa volta rodando ao redor de nossas cabeças.

No nosso cotidiano como começaria essa história? Vamos imaginar um cotidiano normal, dentro da média. Alguém que trabalhe de dia e durma à noite, por exemplo.

É quarta-feira, meio da semana. Essa pessoa acorda. Levanta-se. Está cansada. Não dormiu o quanto queria. Teve muitas coisas e compromissos a realizar na noite anterior. Compromissos simples, nada de mais. Cuidar de contas ou da casa, dar atenção a algum familiar, verificar o funcionamento da casa, jantar, tomar banho, ver televisão, saber das notícias.

Nada de arrojado não é? Esse alguém poderia até ser um de nós. Uma pessoa da classe média. Classe média, digamos de passagem, que no mundo globalizado ficou mais pobre. Ao mesmo tempo é o alvo máximo de toda a mídia.

Quanta coisa essa pessoa gostaria de comprar. Quantas vezes ao acordar de mau humor por ter dormido pouco não sonha em ficar rico. E uma dúvida sempre assalta. Os ricos são espertos e maus-carateres? Bem, dentro dessa história de hegemonia sabe-se que as grandes corporações não estão ligando nem um pouco para o social, direitos, fome, saúde e educação...

Como essa pessoa não é rica, o que lhe resta é trabalhar e muito. Muito para atender as exigências desse mundo de compras. E por trabalhar muito não tem tempo para curtir o sempre pouco que pode comprar dentro dessa roda viva.

Bem, continuando nossa historieta. A pessoa se levanta, finalmente. Segue para o banheiro. Escova os dentes com a pasta e escova tais. Passa mais rápido que um relâmpago o pensamento: é adequada mesmo essa escova, essa pasta, aquela outra não seria melhor? Vamos supor que essa é realmente a primeira dúvida do dia. Se não o for outras muitas antes, que só seu corpo tomou consciência através de seus sentidos.

Nesse trajeto o tempo vai muito rápido. Muitas informações retidas no pré-consciente podem se manifestar nesse limbo do estar acordado e ainda continuar um pouco dormindo. A censura está mais relaxada e com isso há maior probabilidade das dúvidas irromperem importunamente.

Finalmente essa pessoa escovou seus dentes. Veste-se rápido. Vai para a academia. Tem de ter uma saúde perfeita e um corpo mais perfeito ainda, aliás, o corpo está sempre à mostra, observado, a saúde nem sempre. Mas a saúde produz cor. Ela aparece sutilmente.

Constata algumas tensões no seu corpo. O pescoço está duro, tenso. Os ombros e as costas nem se fala. Não conseguiu ir ao banheiro hoje. Prisão de ventre. Não consegue ir ao banheiro no trabalho.

Lembra-se que por desânimo comeu uma barra de chocolate no dia anterior. Grave pecado contra o deus das aparências. Tem tanta propaganda de chocolate por aí. A punição tem de ser bem maior. Mais abdominais ainda. Fica contente momentaneamente na academia. Sabe-se já que pelas endorfinas. Isso também é sutilmente importante.

Relaxou um pouco mais. Tomara que não tenha nenhuma dor de cabeça. Senão tem de tomar analgésicos e isso dá sono. Muito desagradável. Fica parecendo que está sem motivação.  

Toma um banho, na própria academia. Usa sabonete, xampu, condicionador, pós-banho hidratantes de vários tipos, perfume... Momento importante veste-se para impressionar. A roupa como armadura da guerra da competitividade.

Outro parênteses: segundo Milton Santos em Por uma outra globalização, a competitividade toma o lugar da competição. A concorrência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda forma de compaixão. A competitividade tem a guerra como norma. Há, a todo custo, que vencer o outro, esmagando-o para tomar o seu lugar.

Voltando à nossa historieta. Um leve mal-estar passa. Terá de começar a derrubar algumas pessoas hoje. O objetivo é tomar seus lugares. Ganhar. Afastar da lembrança a imagem do perdedor. Essa imagem é inserida, marcada em nível do pré-consciente, já que nascemos num país pobre e que obviamente não faz parte dos dominantes e sim dos dominados.

Chega ao seu trabalho. Uma grande empresa. Uma megacorporação. Algo do porte que só esses últimos anos foram capazes de produzir. Uma das grandes propagadoras do pensamento hegemônico. Tem de sorrir para todos, apesar do cansaço e da pontinha de desânimo. Já pensou se seus colegas de trabalho, principalmente aquele que ocupa o lugar dos seus sonhos..., percebem o seu estado de espírito? De forma alguma. Ninguém pode saber dessa sua tendência à depressão. Só aquela terapeuta incompetente que não está conseguindo fazer isso passar. Olha que o valor pago por sessão é até significativo. Não se compara a alguns gastos seus, mas afinal tem de se apresentar. Roupas custam muito caro e os acessórios da moda, carro, saídas, e outras coisas mais, muito mais. Afasta novamente os pensamentos sombrios. Tem de passar a imagem de bom humor, de estar com muita motivação, ânimo e segurança, certeza do que pensa, de suas opiniões. Queria tanto ser como aqueles que têm todos os músculos no tamanho e lugar certo, dentes perfeitos, sorriso magnético, parecem até que saíram do comercial da televisão americana. Americana do norte é claro.

Envolve-se em muitas tarefas até o almoço. Tarefas chatas. Novamente os pensamentos sombrios. Rechaça-os. Tem de almoçar só aquela salada de sempre. Sem nenhuma vontade. Se pudesse se empanturraria, mas e os quilos? Come e observa os outros, as roupas, os gestos e se acha melhor que todos.

Após o almoço a mesma coisa. Pelo menos o humor melhorou. Essa história de pessimismo sempre na parte da manhã é muito desagradável. De repente, quem sabe, um antidepressivo. Lê nas revistas que eles são muito eficazes e estão se tornando um sucesso. Vendem muito. Vai pensar seriamente nisso. Pode ir àquele psiquiatra da revista. Ele parece fazer muito sucesso.

Não tem hora para sair do trabalho. Afinal, não é funcionário público. E tem de mostrar competência e disposição. Lá vem ela. A dor de cabeça. Parece ter hora marcada. Sente suas costas arderem, seu pescoço dolorido, seus olhos parecem estar cheios de areia. Pensa que as pessoas que trabalham muito e têm de ganhar dinheiro não deviam se cansar.

Lá pelas tantas sai do trabalho. A exaustão toma conta. Sua cabeça e seu corpo estão moídos e ainda tem um monte de coisas para fazer... nem percebe que seu dia é igual desde sempre.

Novamente recorremos a Milton Santos: ”A presente realidade se caracteriza pelo uso extremado de técnicas e de normas..., aumenta a inflexibilidade dos comportamentos, acarretando um mal-estar no corpo social”.E acrescentamos, no corpo de cada um também.

Paulo Amarante diz: “O modo de viver, adoecer e morrer dos homens constitui um processo socialmente determinado”.Não é tão comum vermos desânimo, mau humor, pânico, tristeza? É cotidiano. De todos os dias. E nesse processo extremamente rápido e selvagem de triturar valores para deixar incertas as opiniões, para facilitar o domínio da propaganda, para fabricar consumidores, a coluna um lá do início cresce e aumenta.

Tudo isso tem seu custo, o dos males da pouca ou nenhuma ética e da muita ou só moral rígida parasita dentre outras coisas, da criatividade. E não existe alegria sem dor, amor sem medo.

Qual seria a saída para essa vida encurralada, sem expressão, triste? Segundo Milton Santos “dentro desse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem pouco a pouco descobre suas novas forças. Já que o meio ambiente é cada vez menos natural, o uso do entorno imediato pode ser menos aleatório. As coisas valem pela sua constituição, isto é, pelo que podem oferecer. Os gestos valem pela adequação às coisas a que se dirigem. Ampliam-se e diversificam-se as escolhas, desde que se possam combinar adequadamente técnica e política. Aumentam a previsibilidade e a eficácia das ações”.

Com essas facilidades técnicas nós passamos a ter mais tempo, isto é, desde que nossas necessidades básicas estejam supridas, a pensar e querer mais qualidade. Isto diz respeito principalmente a relações. Nunca se publicou tantos livros em torno desse assunto. Como os homens devem entender as mulheres. As mulheres aos homens. Os adultos às crianças. E por aí temos uma infinidade de variações sobre temas parecidos.

Isso nos coloca diante de nós mesmos. Desde o início do século XX, essa questão vem se propondo e com a facilidade tecnológica sobra mais tempo para relações. Com tantas máquinas, as emoções tornam-se importantes. Emoções que devem ser entendidas para que vivamos melhores nesse mundo tão complicado e complexo. Transitar nessa complicação pode ser a nossa saída. Entendemos dessa forma, dentro da proposta e da realização desse evento em torno do qual estamos reunidos, que concretamente podemos resistir e ajudar a mudar, produzindo microrrevoluções todas as vezes que a balança pender mais para um determinado lado.

 

E ouvindo Nietzsche, em Assim falou Zaratustra “Somente quando o sofrimento não for mais vivido como uma objeção contra a vida e um motivo para condená-la é que o homem poderá superar seu desejo de um além metafísico e seu rancor contra a passagem do tempo. Somente dessa maneira a totalidade da vida poderá ser assumida, sem acréscimos e subtrações, com todas as suas misérias e êxtases firmemente encadeados entrei si, pois eles se condicionam mutuamente e aquele que deseja, de fato, a ventura não pode amputar as dores do mundo”.

BIBLIOGRAFIA  

AMARANTE, Paulo. Loucos pela Vida, Panorama ENSP, Rio de Janeiro, 1995.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Vols. I e II, Editora 34, Rio de Janeiro,                  RJ, 1995.

ESCOBAR, Carlos Henrique de. Dossier Deleuze, Hólon Editorial, Rio de Janeiro, 1995.

ESPINOSA, Baruch de. Ética III IN Os Pensadores, Editora Abril, São Paulo, 1979.

HEIDEGGER. Os Pensadores, Editora Abril, São Paulo, 1979.

NIETZSCHE, Os Pensadores, Editora Abril, São Paulo, 1978.

ROSSET, Clément. Conexões. Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2000.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Record, Rio de Janeiro, 2001.

 

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