A Análise Psico-Orgânica
O início de uma trajetória

Silvana Sacharny

Conteúdo

Introdução
1 - Abordagem Psicanalítica
2 - Abordagem Psico-energética/orgânica
3 - Psicologia humanista
4 - Filosofia / Espiritualidade / Sensologia
Conclusão
Bibliografia

INTRODUÇÃO

A Análise Psico-Orgânica foi introduzida no Rio de Janeiro pela psicóloga e psicoterapeuta Silvana Sacharny .

Paul Boyesen e Silvana Sacharny

Voltando ao Brasil, em 1992, após ter realizado a formação de psicoterapeuta na Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica (EFAPO), iniciou uma trajetória de ensino através de cursos de base em massagem biodinâmica e análise psico-orgânica. Um trabalho cada vez mais vinculado à Escola Francesa foi se estabelecendo, reunindo um círculo de profissionais de diversas áreas do campo da saúde e da educação, interessados por esse método.

Paul Boyesen , fundador e diretor da EFAPO, e Anne Fraisse, co-fundadora e formadora da mesma escola realizaram, durante esses anos, workshops no Rio de Janeiro.

Esse movimento foi amadurecendo até que, em julho de 1998, iniciou-se o primeiro grupo de formação de psicoterapeutas em análise psico-orgânica no Rio de Janeiro. A formação é organizada sob a mesma estrutura da Escola Francesa (programa de ensino, tempo de duração, princípios éticos). Os coordenadores são Paul Boyesen, Joelle Boyesen, Anne Fraisse (cada formador vindo ao Rio para um seminário de 5 dias) e Silvana Sacharny na orientação contínua do grupo.

No momento atual da psicoterapia corporal no Brasil, há uma grande necessidade e um esforço da parte dos profissionais no sentido de vincular o corpo teórico ao corpo emocional e somático. Não é mais viável nem suficiente a permanência na vivência corporal sem a conexão conceitual.

É através da articulação entre algumas abordagens que a análise psico-orgânica vai aprofundando suas bases teóricas e enriquecendo sua prática clínica.

A análise psico-orgânica se servirá da referência de quatro eixos terapêuticos, nos seguintes aspectos:

1 - ABORDAGEM PSICANALÍTICA

Baseada na não-intervenção, trabalha com o inconsciente, transferência e contratransferência.

O psíquico não se reduz ao consciente. O inconsciente é a instância em que se encontram os afetos e representações que, pelo recalque, não podem acessar a consciência. Utiliza-se a técnica da livre-associação. Pela regra da livre- associação, o paciente deve comunicar tudo o que lhe vem ao espírito sem o objetivo de um fio lógico e, se a regra é aplicada, o material do discurso toma a forma de alusões ao recalcado.

Há também o processo de interpretação dos sonhos. É o lento e rigoroso trabalho de decodificação que permite interpretar o sonho, encontrando o latente sob o manifesto, processo que remete ao inconsciente próprio do sonho e à sua história.

2 - ABORDAGEM PSICO-ENERGÉTICA/ORGÂNICA

Baseada na intervenção, no sentido da motivação, onde o terapeuta convida o paciente a expressar, a buscar os seus conteúdos recalcados e, desta forma, atualizar e viver o que não pôde passar pela expressão. Diferentemente de nomear o não-dito na psicanálise, nessa abordagem o corpo existe na sua experiência sensorial e emocional e não apenas enquanto simbólico.

As relações estreitas que existem entre as perturbações psíquicas e o corpo, entre a tensão muscular e a tensão nervosa foram postas em evidência. A partir do corpo enquanto unidade funcional, serão desenvolvidas várias abordagens energéticas e/ou orgânicas; trabalhos corporais que buscarão atravessar os diversos níveis de bloqueios e tensões, permitindo, dessa forma, a expressão muscular e emocional, podendo ir na direção da psicodinâmica.

Isto viabiliza ao sujeito contatar suas bases constitutivas, revisitar os seus referenciais originais, buscar os seus sentidos para atualizar suas relações no mundo. É o que Paul Boyesen denomina de macro-regulação, a regulação do sujeito na e em relação com o mundo.

Numa outra vertente, existem trabalhos no sentido da reposição energética, como, por exemplo, as massagens. Essa abordagem procura aprofundar o relaxamento, restaurando a capacidade de auto-regulação vegetativa do organismo, baseada na função de dissolução do estresse físico e emocional. Esse processo possibilita a restauração do prazer, da confiança no corpo, da segurança de base, sendo denominado regulação interna ou micro-regulação.

É fundamental a possibilidade de integração e de circulação entre esses dois registros, da micro para a macro-regulação e vice-versa.

3 - PSICOLOGIA HUMANISTA

Nesse eixo, a focalização do sujeito se dá através da sua humanidade, considerando os problemas vivenciais e existenciais, tais como dificuldades de relacionamento e comunicação.

O papel do terapeuta na relação de ajuda se limita a permitir que o cliente seja ele mesmo, a colocá-lo, portanto, num clima acolhedor de confiança (a empatia) e a ajudá-lo a perceber a maneira pela qual ele percebe o mundo e a si mesmo. Trata-se bem mais de uma fenomenologia da relação do que de uma chamada ao inconsciente, no sentido psicanalítico. Nessa perspectiva não há a dinâmica da transferência nem a da interpretação, o objetivo do terapeuta é o de permitir a seu cliente conhecer-se tal como é aqui e agora.

4 - FILOSOFIA / ESPIRITUALIDADE / SENSOLOGIA

No campo da espiritualidade encontramos as crenças existenciais do sujeito que se referem à essência da sua existência. Podemos compreender a espiritualidade como sistema de crenças, baseada na experiência cosmológica do sujeito. Nessa experiência o homem vai buscar, perguntar e encontrar valores pessoais. A espiritualidade busca a integração entre a existência e a coexistência.

A filosofia vai questionar grandes temas da humanidade, vai buscar referências básicas para o homem.

Em relação ao campo da psicoterapia, o importante não é trabalhar no sentido da transmissão de crenças, nem responder a questões comuns ao homem. Do ponto de vista da sensologia que, segundo Paul Boyesen, é a possibilidade de acolher o sentido do outro e mesmo ajudar o sujeito a encontrar os seus próprios sentidos e valores, vinculando o sentido à sensação. A sensologia é o campo de estudo do sentido e da sensação na vivência pessoal da realidade imediata. É a filosofia pessoal baseada em sistemas de crenças fundamentais na relação entre a essência e a matéria. A sensologia não é uma filosofia, pois não tenta explicar um conceito universal e sim o sistema de crenças e de sensações pelas quais a pessoa vive seu mundo através de uma realidade essencial.

CONCLUSÃO

Para concluir, o Brasil é um país de grandes paradoxos. Um país novo, completando, no ano 2000, 500 anos de descobrimento pelos colonizadores portugueses. Carrega até hoje, através de sua história, a luta de um povo que na miscigenação de raças e culturas (índios, negros e brancos) possui um enorme potencial a ser dinamizado.

Convivemos com muita miséria, analfabetismo, ignorância, violência e corrupção mas, ao mesmo tempo, buscamos resgatar a dignidade humana e o valor de nossa cultura.

O Centro Brasileiro de Formação em Análise Psico-Orgânica iniciou a sua trajetória com o compromisso ético da formação de psicoterapeutas de forma que este profissional possa desenvolver e aprofundar suas bases pessoais, teóricas, clínicas. Compromisso esse que vincula a existência e a coexistência, o reconhecimento e a responsabilidade do indivíduo inserido no contexto social; profissionais que vão se colocar a serviço do humano.

Bibliografia

Biografia: SILVANA SACHARNY