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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira
 
 

A proposta reichiana do Anti-Édipo

por Frinea Brandão

© 1997 - Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/anti-edp.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.

 
"Na sua tarefa destrutiva, a esquizo-análise deve proceder o mais depressa possível, mas também só pode proceder com uma grande paciência, uma grande prudência, desfazendo sucessivamente as territorialidades e re-territorializações representativas pelas quais um sujeito passa na sua história individual."
(O Anti-Édipo - Giles Deleuze e Felix Guattari)

O tributo de Deleuze e Guattari é também à clínica. Eles ajudam a cortar as amarras do academicismo. A prisão religiosa que acabaram se transformando a maioria dos aglomerados de psicoterapeutas em torno de um mestre qualquer, contribui para o amordaçamento da criatividade. Essa pode ser considerada uma forma de edipianização.

Reich, criador de um novo território, pode servir de exemplo para a construção de um saber próprio. Reich não teve gurus. Ele teve mestres. Ele que não se aglutinou edipianamente em torno do pai. Ele que foi além. Por isso conseguiu ficar independente e manter a sua potência orgástica. Não teve que sacrificá-la a um determinado pai, a uma determinada organização patriarcal cumprindo a profecia - desejar uma mãe que não deseja para manter a vaidade paterna, para manter o narcisismo na roda giratória do seu próprio consumo. Comendo seu próprio rabo. Alimentando-se do vazio. Tornando-se impotente.

Reich aprendeu com Freud. Aprendeu com a psicanálise, e sempre respeitou todas as regras da aprendizagem e de aplicação do método psicanalítico na clínica. Tratou clientes desesperados. Entendeu a ótica do desespero. Captou a importância do ponto de vista econômico. A energia. O afeto. O que anima a alma. Na clínica Reich rompe com o tabu do tocar simplesmente porque sabia o que fazer.

Em se tratando de Reich tudo é animado. Tudo é energia. O afeto é o construtor do psiquismo. O gesto é pleno de afeto, senão ele se mecaniza, se encouraça. Como se ele pertencesse a um outro, a um grande Outro. Se esse gesto se encouraça, fica edipianamente cercado, preso. Reprimido. Esse pai edípico usa a força da repressão para prender e a do recalque para manter preso. Querendo que se deseje uma mãe que não deseja para satisfazer a um pai vaidoso. Mulheres, moeda de troca no capitalismo.

Com os desesperados Reich entendeu que o desejo podia sair de casa. Como Freud fez. Os desesperados lhe diziam que existia alguma coisa além do Édipo. Existia uma multiplicidade de quereres, uma multiplicidade de coisas, uma multiplicidade de idéias. Como demonstrou o Homem dos Lobos e sua alcatéia, mais perto dos lobisomens de Grinsburg. E isso o afeto demonstrava melhor que as palavras, suas filhas. O afeto que anima, move, aglutina, organiza. Na desorganização do desespero, onde as palavras se perdem, Reich entendeu que o afeto ainda existe para manter e lembrar da existência da vida. O afeto é a nossa ligação imediata com a vida. É através dele que percebemos que fazemos parte do universo. Somos grãos e seus grãos. O universo está em nós nos animando com parte de sua energia. Fomos criados pela energia dele na rota de um tempo qualquer. Cabe a nós dar sentido a esse tempo e inscrevê-lo num determinado espaço. É isso que os desesperados perdem. O espaço de si mesmos e a referência do tempo. Nessa perda ainda há a ligação com o universo. O que resta é o afeto, é o sentido mesmo sem sentido.

Reich na sua clínica constrói passo a passo o sentido, recorta o espaço, inscreve o tempo no afeto. Não desperdiça nem uma migalha de afeto. Tudo é importante. Em função da couraça que pode ser tornada móvel ou em função da organização.

A comunicação é intensa. Nada se perde nesse contexto. As sombras são olhadas. O desejo é o veículo. A ética é profunda, é a ética do amor. O amor em função do conhecimento, em função do trabalho. O contrato cumprido. Comprido no sentido do compromisso que ajudar a entender o sofrimento, a transformar a dor e a prisão da couraça em potência. Potência para o trabalho, para o amor, para o conhecimento.

Isso como nos mostra Deleuze e Guattari, sai do âmbito do recalque, sai do âmbito da repressão. Sai da circunscrição do conformismo, do idealismo. O potente é um desejante, um criador, um contestador das inutilidades, do consumismo, do narcisismo. O potente é generoso, é amoroso. Reich nos ajudou a entender que o desejo é inscrito e criador do social. O desejo tem vários caminhos de vida. Ele nunca sai dos caminhos de vida. Só adulterado e desviado é que ele cumpre com os rituais e os caminhos da morte. Adulterado e desviado é forte o suficiente para manter a ordem que propaga da fome à guerra. É encouraçado. Livre é capaz de criar todas as organizações possíveis de máquinas desejantes. De corpos com órgãos que são tentáculos do amor.

Nesse corpo, os olhos, o primeiro segmento, o primeiro órgão que expressa, que vive. Na psicanálise ele falava era cego, edipiano, na orgonomia ele vive. Ele é energeticamente carregado, ele como expressão do todo, de uma unidade funcional ele expressa o que o desejo quer. O desejo como unidade funcional desse cosmos, dessa vida. Os olhos, é que nos mostra a alma. A janela para o invisível visível para o interior emocional. Nele como um caleidoscópio passa a dor, a ternura, a raiva... Coisas que vem do peito, do meio do corpo, que a boca e a garganta forçam para baixo, para sua descida ao inferno, para sua prisão no peito e muitas vezes diafragmática, ou que a boca e a garganta permitem escapar como coisa ainda... um grito, um suspiro, um arroto. E que no momento da dor ou do alívio são representadas pela palavra, pela idéia. Formam um conhecimento que se torna generosamente repartido, como Jesus com os peixes, em sua unidade funcional.

O órgon que liga, que produz vida. Representado como afeto, como coisa, como palavra. Viajando e animando todo esse corpo dotado de órgãos. Cada célula pulsando, expandindo e contraindo num movimento universal.

Depois vem o segundo segmento representado aqui pela boca. Boca que na psicanálise espera os beijos do papai ou da mamãe. Boca que pode se distorcer num devoramento desvairado, que se perde de rumo, que fica sem energia, que não gosta, só engole. A boca que não está reprimida, que está energeticamente ativa, é aquela que beija, que saboreia, que acalenta e que apaixona, que morde e mordisca.

Do pescoço para baixo, o corpo para a psicanálise das construções edipianas só existe enquanto fabricante de sintomas. É o nó da garganta de Elizabeth, os braços e pernas de Ana, muitos corpos casos clínicos, até Klein dotá-lo de seio bom e seio mau.

O pescoço para nós existe, pode ser o que sofreu repressão. vai do duro narcisista com sua língua que fala sem afeto, sem energia, à descoordenação do esquizofrênico. O pescoço órgão da decodificação, da ponte, do caminho, da sustentação da cabeça, dos olhos, da boca, pode empreender uma busca de sentido.

O quarto segmento, o peito, vulcão do amor, do ódio. Caixa que guarda e resguarda. Que implode quando sob a égide da repressão, que explode fazendo a boca cuspir o fogo de ódio descabido ou a dor da contenção, a angústia. O desalento. É onde ressoa a prisão. Onde o afeto é feito prisioneiro. Quando vive, quando se torna um órgão é o fabricante de danças, de proteção com seus apêndices braços, de colo, de acalento, de paixão, de compromisso num aperto firme de mãos. O peito segmento sabe o que é compromisso.

Depois o diafragma nó de vida. Na virulência dos sucos gástricos há a distorção perversa e o envenenamento do amor. Na prisão da agressividade a divisão, a desorganização. Diafragma sem nó, na potência: sujeito capaz de anelar, de produzir impacto com sua agressividade, produzir enfrentamento, preparar-se para o risco, para o perigo.

O abdômen, sexto segmento, na potência responde como veículo. O intestino com suas voltas pode refletir ou ruminar, dependendo de que polo se encontra, dependendo de que voz vai portar. Pode estagnar ou produzir. Supre ou paralisa.

A pélvis, último segmento, como o olho olha, cria. Movimento ou destruição. Competição pela vida ou pelo poder. Poder que pode ser do eu posso como pode ser do eu quero tudo para mim. Nesse cromatismo a inserção dos movimentos geradores de amor e ódio, produzindo ambição egoísta e ambição generosa. Órgãos genitais: masculino e feminino. O porte das diferenças, o rumo, ou a perda dele. A escolha do prazer adulto ou a não escolha de ficar ancorado numa outra vida, num prazer infantil, na falta de rumo. Na perda de sentido, na violência do abuso sexual, do estupro fálico e do estupro moral. A pélvis e os órgãos genitais fazem um mundo adulto, cheio de compromisso, responsabilidade e alegrias. Através da entrada nesse mundo pode-se dar segurança e vida ao mundo infantil, às nossas crianças. A alegria de viver está interligada ao rumo, à direção, a intenção. A força da direção que na psicose se perde, na perversão se fixa e na neurose se inibe.

Todos esses são órgãos falantes, pulsantes constituintes de uma unidade funcional, representantes de uma unidade funcional. Animados pela energia orgônica, com sua bio lógica universal. Nas máquinas desejantes, potentes, tudo funciona ao mesmo tempo, um mundo de vibrações, de explosões, de rotações. Um mundo de Reich. Um mundo também de Deleuze e Guattari.

Bibliografia

Deleuze, G. e Guattari F., O Anti-édipo, Imago, Rio de Janeiro, 1976.

Reich, W., Análise do Caráter, Martins Fontes, São Paulo, 1974.

Sobre a Autora

Frinea Brandão tel: (021) 9972-2508
Psicóloga, psicoterapeuta reichiana, coordenadora do CeReich onde forma terapeutas.

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