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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira
 
 

 

A QUESTÃO DA SEXUALIDADE E A PREVENÇÃO DA AIDS

Luiz Carlos de O. Marinho

© 1994 - Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/aids.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.
 
O Problema / O Ambiente / A Intervenção / Bibliografia
 

Resumo

Abstract

Este trabalho demonstra que se não forem considerados os aspectos emocionais que estão envolvidos na sexualidade, as campanhas de prevenção da AIDS não atingem o resultado esperado.  This monograph shows that if the emotional aspects in which sexuality is imbedded are not taken into account, all the programs for prevention of AIDS will not achieve the expected results.

PROBLEMA

Apesar de todos os esforços desenvolvidos até agora com o intuito de esclarecer e conscientizar a população, de um lado, quanto às formas de contágio da AIDS, e, de outro, quanto ao que fazer para reduzir os riscos de contágio, percebe-se que o número de novos casos tem aumentado assustadoramente. Nesta medida, a prevenção da AIDS acabou por se constituir num problema profundamente inquietante para todos nós, profissionais de saúde. Descobrimos, na prática, que não é assustando as pessoas que vamos levá-las a adotar medidas preventivas contra a AIDS. Descobrimos, também, que não é suficiente dar-lhes conhecimento, informando-as precisamente sobre como se comportar e sobre o que evitar. O medo e a conscientização, que já foram tão eficazes em outras campanhas de massa, mostraram-se, neste caso, completamente ineficientes.

De fato, vários estudos estatísticos têm demonstrado que, no caso da AIDS, a conscientização não é suficiente para alterar o comportamento do sujeito. Berquó e Souza (1), por exemplo, demonstram que 80% dos homens estão plenamente conscientes de que o uso do condom é um método preventivo da AIDS. Dentre os conscientes, 74% tiveram relações sexuais no último mês, e destes somente 30% usaram condom. Quer dizer, de um modo geral as campanhas que se pretendiam preventivas, foram, na verdade campanhas quase que exclusivamente informativas, e neste sentido plenamente exitosas. O desafio que se coloca para nós, no momento, é produzir meios de intervenção na população que ultrapassem os aspectos quase que exclusivamente informativos, e sejam capazes de induzir transformações no comportamento dos indivíduos.

Na verdade, o que se passa é que todos os esforços materiais, financeiros e humanos, despendidos em campanhas educativas dependem, para serem bem sucedidos, do simples gesto de um indivíduo usar ou não o condom numa relação sexual. Dito de outro modo, o fulcro, o nó central de tudo que se possa fazer em termos de AIDS é a sexualidade. Apesar disso o que se vê, principalmente, é uma imensa discussão sobre os mais diversos aspectos da doença, ao passo que, a respeito da sexualidade, o máximo que se tem feito é elaborar programas que se aproximam muito mais de uma tentativa de esclarecimento dos aspectos higiênicos e fisiológicos da reprodução humana e das doenças sexualmente transmissíveis, do que de um enfrentamento direto e aberto da questão do desejo, do prazer, e do gozo presentes numa relação sexual.

Existe, de um modo geral, entre os profissionais envolvidos com os programas de prevenção de AIDS, uma evitação, um pudor, e muitas vezes um despreparo, quando se trata de abordar a sexualidade pelo ponto de vista do prazer. De algum modo, todos nós pressentimos que se assim o fizermos estaremos retirando o HIV do centro das discussões, para colocar, em seu lugar, o ser humano com todo o seu imenso emaranhado de sentimentos, aspirações e frustrações. E, como lidar com seres humanos é consideravelmente mais difícil, sobretudo no que diz respeito a algo tão íntimo como a sexualidade, temos optado consciente ou inconscientemente por nos mantermos numa posição por demais defensiva quanto a este tema.

Todavia, o próprio desenvolvimento da epidemia acabou por colocar diante de nossos olhos aquilo que muitos de nós tentávamos evitar ver. Inicialmente porque ao constatarmos que, no caso da AIDS, não existe um grupo de risco, mas sim um comportamento de risco, retiramos o problema do âmbito estrito da sociologia e o inserimos em cheio no campo da psicologia. Como a cadeia de transmissão da AIDS depende principalmente do padrão de relacionamento pessoa a pessoa, somos obrigados a olhar o problema pelo ângulo dos indivíduos e não das massas. Ao mesmo tempo percebemos que todos nós, sem exceção, fazemos parte da população contaminável. E isto porque o "vetor" principal desta epidemia é a sexualidade, aspecto comum à existência de todos os seres humanos.

É urgente, portanto, abandonarmos uma política de avestruz quanto ao gozo sexual. Devemos dedicar a esta questão muitíssimo mais tempo do temos dedicado até agora. Precisamos conseguir muito mais espaços onde possamos tratar não dos fluidos, dos humores, das bactérias e dos vírus que eventualmente estão presentes num ato sexual, mas sim, e sobretudo, do prazer que todos seres humanos, de um modo ou de outro, buscam em suas práticas sexuais. Isto porque, para ser exato, o único efeito palpável do vírus para um indivíduo no momento em que ele está envolvido em alguma prática sexual, é a perturbação que este vírus pode trazer em seu gozo sexual.
 

AMBIENTE

Ainda que universal, a sexualidade humana não é a mesma para todos os indivíduos. Ela assumirá em cada sujeito um perfil que depende de sua história pessoal e do seu ambiente sócio-cultural. Isto significa que se pretendemos desenvolver um programa de prevenção contra a AIDS, precisamos, sim, considerar a sexualidade, só que nos termos de cada grupo que pretendemos atingir.

Tendo em vista os objetivos específicos de um programa de prevenção de AIDS, e a realidade atual de nosso país, podemos dividir os brasileiros, do ponto de vista sócio-econômico, em dois grandes grupos. O primeiro é constituído pelos estratos mais bem informados, com maior poder aquisitivo, e de algum modo integrados à aldeia global formada pela moderna cultura urbana mundial. O segundo grupo é formado pelos indivíduos que ainda estão à margem daquilo que a modernidade tem a oferecer. Têm baixo poder aquisitivo, dependendo, por conseguinte, de uma assistência mais direta do Estado. Seu nível de instrução é precário, e nesta medida dispõem de um baixo volume de informações. Cada um destes grupos tenderá obviamente a reagir de modo diverso frente à epidemia de AIDS.

Quanto aos estratos de maior poder aquisitivo, pode-se notar a presença de uma atitude sexualmente consumista, resultante sobretudo da conjugação de três processos sociais claramente identificáveis. O primeiro processo diz respeito ao fato de que o imenso avanço técnico e científico deste século, e em particular da medicina, afetou profundamente o imaginário dos membros destes estratos. Todos, de um modo ou de outro, são bombardeados diariamente com um tal volume de informações sobre as imensas conquistas da medicina, que acabam por acreditar que já se pode controlar praticamente qualquer desajuste do corpo humano. Ao mesmo tempo, não ouvem mais falar de grandes epidemias. Quando acontecem, as epidemias são de menor extensão e duração, e diante delas todos tendem a concluir que se alguma falha ouve foi do Estado e não da medicina. Pensa-se que se as condições alimentares e de higiene fossem adequadas, se as vacinas fossem fornecidas a tempo, e se os hospitais fossem melhor equipados, a epidemia teria sido controlada bem antes. A morte coletiva foi, por assim dizer, afastada do imaginário destes indivíduos, e substituída pela crença nos poderes da moderna medicina.

O segundo processo social marcante foi a liberação dos costumes que teve início no final dos anos 50, associada à tendência consumista da sociedade moderna, formaram um ambiente no qual os sujeitos, integrantes destes estratos, imaginam poder usufruir, cada vez mais, e sem barreiras, da excitação e da satisfação dos sentidos. O advento de métodos anticonceptivos mais eficazes, e a possibilidade oferecida pelos antibióticos para a cura das doenças sexualmente transmissíveis, forneceram as condições materiais objetivas para que a liberação sexual deixasse de ser uma bandeira ideológica e se tornasse, de fato, um modo de viver.

O terceiro processo social importante resulta do fato da atualidade estar marcada pela derrocada dos grandes modelos de sustentação existencial. O marxismo, o liberalismo econômico, a tecnologia, a psicanálise, e o comunitarismo hippie, entre outros, acabaram por se mostrar, na prática, incapazes de livrar completamente o homem das dificuldades inerentes ao existir. Como sempre foram os integrantes dos estratos mais favorecidos que mais estiveram em contato com tais modelos, foram também eles que mais sofreram com sua derrocada. Muitos passaram, desde então a conviver, perigosamente, com a presença de uma forte sensação de vazio interior.

Para dar um sentido à própria vida muito dos integrantes dos estratos mais aquinhoados, formados numa cultura urbana, educados de acordo com padrões internacionalizantes, e com bom nível de informação global, optaram por se lançar num consumismo sensorial, marcado pelo sexismo e pela constante referência à sensualidade. Neste contexto a sexualidade e seus prazeres, passou a ter um importante papel enquanto preenchedora do referido vazio existencial. Tais indivíduos, como era de se esperar, tenderão sempre a resistir fortemente contra qualquer proposta que se configure como restritiva de seus gozo dos sentidos.

Já os estratos mais carentes ainda estão às voltas sobretudo com a sobrevivência diária. Alijados do consumismo internacionalizante, têm um padrão cultural mais conservador, marcado sobretudo pelos discursos religiosos. A sexualidade ainda é um tabu e o prazer sexual um tema embaraçoso, e portanto evitado. O baixo poder aquisitivo dos indivíduos pertencentes a estes estratos, transforma-os em completamente dependentes do Estado quanto à educação e à saúde. Eles estão impossibilitados de usar o condom como preventivo da AIDS simplesmente porque não têm condições de comprá-lo. Caberia, portanto, ao Estado distribuir os preservativos para estes indivíduos, como parte de uma política de saúde publica.

No entanto, a julgar pelos que se pode observar entre aqueles que tiveram camisinhas disponíveis e não as usaram, pode-se concluir que mesmo se houvesse uma farta distribuição dos preservativos, muitos não o usariam em virtude de fatores emocionais ligados a uma postura sexual. Nestes estratos a negação do uso do preservativo se dá principalmente em função da necessidade de afirmação de uma posição tida como masculina, viril. Quer dizer, usar condom significa, para muitos homens, abrir mão do gozo que o exercício de uma masculinidade absoluta, incontrolável, lhes proporciona.

Como se vê, a AIDS tem um efeito devastador muito mais abrangente do que a já terrível cota de vidas que vem nos cobrando. A AIDS nos provoca uma insuportável sensação de impotência, pois demonstra que a medicina não está tão desenvolvida assim, e que os esforços do Estado são eficazes quase que exclusivamente na evitação do contágio por meio das transfusões de sangue. Sem a ajuda da medicina e do Estado, sentimo-nos abandonados e espoliados. Abandonados, em primeiro lugar, porque percebemos que cabe exclusivamente a cada um de nós evitar a propagação da epidemia; em segundo lugar, porque sabemos que se formos contaminados é quase certo que mais cedo ou mais tarde passaremos pela via crucis da dor e da degradação física provocadas pela doença. Sentimo-nos espoliados porque ficamos com a impressão de que nos está sendo roubada a possibilidade de usufruir de um gozo sexual quase sem limites, gozo este que é sugerido e estimulado sistematicamente pela mídia. Sem este gozo, e com os grandes ideais reduzidos a pó, nos vemos diante de um vazio existencial destroçador. E este talvez seja o efeito mais perverso da AIDS: remeter os indivíduos, em seu imaginário, ao contato com a própria finitude e impotência.
 

INTERVENÇÃO

Por intervenção entende-se qualquer atuação direta sobre a população (ou um segmento dela), com o intuito de mudar o comportamento dos indivíduos. Neste sentido são intervenções, por exemplo as campanhas publicitárias, os grupos operativos, os grupos vivenciais, as palestras, os seminários, etc.

Por tudo que foi exposto acima conclui-se que as intervenções que visam a prevenção do contágio da AIDS pela via sexual precisam ser urgentemente repensadas. Sua lógica operacional e os instrumentos utilizados devem ser redefinidos a partir de uma conceituação fundamentada numa reflexão profunda a respeito do significado da AIDS no contexto da sociedade moderna, considerando, sobretudo, suas implicações afetivas e existenciais, na sexualidade dos indivíduos. Com isto se construiria uma política integrada de ação, que levasse em conta não apenas os aspectos cognitivos, mas também os aspectos afetivos, sexuais e existenciais da população alvo das intervenções.

Um dos mais importantes canais para o desenvolvimento de um programa de prevenção de AIDS é, sem sombra de dúvida, a empresa. Por meio da empresa é possível um acesso mais direto e mais específico aos indivíduos. Sendo assim é fundamental que cada empresa, na medida de suas possibilidades e de suas necessidades, conduza algum tipo de atividade formadora da mentalidade preventiva da AIDS entre seus empregados.

Sugere-se, para tal, a formação de um grupo de multiplicadores internos da empresa, capacitados a transmitir não só as medidas higiênicas ligadas à prevenção de AIDS, mas sobretudo habilitados para lidar com as questões sexuais específicas envolvidas nesta epidemia.
 

Bibliografia

(1) - Loyola, Maria A., org.- AIDS e sexualidade: o ponto de vista das Ciências Humanas, Rio de Janeiro, Dumará, 1994.
 

Este texto foi apresentado no Fórum Permanente sobre AIDS na Empresas do SESI RJ, em 1994.
 
 

Autor

Luiz Carlos de Oliveira Marinho

Psicólogo; Mestre em Filosofia UFRJ; Psicanalista, Psicoterapeuta Corporal

Consultório: Rua Real Grandeza 182 casa 3, Botafogo, CEP 22281-031.

tel: 539-0991.

 

Veja também:

HIV & AIDS; Rethinking AIDS WebSite - Router

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