O R G O N i zando

Psicoterapia Corporal
e Orgonomia 
desde Wilhelm Reich

A crise de valores na pós-modernidade
Apresentado originalmente no 7º Congresso Internacional de Psicoterapia Corporal

José Guilherme Couto de Oliveira

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Sinopse

A crise multifacetada que perpassa a humanidade nestes últimos tempos se estende a praticamente todos os setores de nossa vida social e pessoal, envolvendo uma singular crise de valores, em uma situação semelhante a que já atravessamos na passagem da Idade Média para a Idade Moderna.

Analisamos esta crise de valores a partir de quatro vieses – a aceleração do tempo, a pulsação entre individuação e pertencimento, a predominância da razão sobre as demais aptidões humanas, e a história do valor na economia. Partindo desses vieses buscamos, tanto no pensamento reichiano quanto em contribuições contemporâneas de diferentes áreas do pensamento humano, orientadores que possam oferecer oportunidades de um crescimento a partir desta crise.

Fazemos um levantamento dos veios positivos identificáveis nos tempos recentes como possibilidades de surgimento de novos valores.

 

Introdução

Vivemos em uma época marcada por um acelerado ritmo de mudanças. Mudanças essas tão abrangentes que parecem indicar uma total reorganização da humanidade, não deixando, portanto, de permear os seus valores. Uma reorganização provavelmente tão ou mais importante que a sofrida na transição da Idade Média para a Idade Moderna.

Em muitos casos, talvez ainda seja difícil discernir com clareza os novos valores, mas certamente os antigos já entraram em crise. Lançamos mão de alguns analisadores para tentar contribuir com alguma compreensão do processo no qual estamos inseridos.

A aceleração do tempo

No atual frenesi das mudanças, cada vez mais aceleradas, parece haver uma vítima comum: a durabilidade [1] . Com a obsolescência espreitando a cada esquina, muitas vezes até mesmo antes da conclusão do processo produtivo, surge no consumidor uma ansiedade, uma urgência de satisfação, que é cada vez mais marcante nas novas gerações, mas que a todos incita. Há que ser rápido para consumir antes que acabe. Processo este que transborda das relações com os objetos para os vínculos humanos e sociais.

Desejos necessitam de intensidade, de um contexto de carga para serem gestados, de um tempo para se carregarem e se desdobrarem em fantasias que se realimentam em ciclos nutridos por um período de acomodação de associações. Esse tempo interno é, entretanto, cada vez mais escasso em nossa vida, premido pelas exigências dessa aceleração vertiginosa do tempo externo. Sem as condições para maturar-se, o desejo tende a minguar e a premência da satisfação o substitui pelos impulsos. Impulsos estimulados pelas seduções oferecidas permanentemente por uma economia que deslocou o seu foco do produtor para o consumidor. E sem o devido respeito ao tempo interno, o organismo se desorganiza tentando atender as demandas externas [2] , e passa a funcionar de um modo mais caótico.

Tomando como referencial a curva orgástica [3] , percebemos como Reich, que todas as ações do ser vivo, concretas e psíquicas, passam por este mesmo ciclo de: tensão – carga – descarga – relaxamento. Se o ciclo for maduro, ele não apenas limpa o terreno para o próximo ciclo, através de uma descarga que se completa até o nível basal, mas também exercita o organismo possibilitando-o a suportar cargas maiores quando for necessário ou desejável.

O potencial orgonótico (ou capacidade orgonótica) de um organismo é a sua capacidade de carga do nível basal ao nível máximo de carga suportável com segurança. Acrescento com segurança justamente porque nas situações de trauma a carga ultrapassa esse nível máximo e fica contida, rompendo a dinâmica pulsativa saudável.

A intensidade da descarga está relacionada tanto ao prazer quanto ao medo, conforme a segurança do organismo em garantir que esta descarga não será destrutiva [4] ; pois a descarga pode trazer tanto o prazer do tobogã quanto o terror da queda de grande altura [5] . Se em segurança, o organismo se entrega à descarga agradável, com prazer proporcional à intensidade da carga. Entretanto, o medo de um descontrole pode restringir a descarga, reduzindo-a a um mínimo manejável e deixando o organismo em um estado hiperexcitado, como ocorre nas situações traumáticas.

O medo, além de impedir a descarga na hiperexcitação, produz um segundo mecanismo, o da evitação, que interrompe a acumulação da carga disparando uma descarga prematura. É esse o mecanismo que opera no impulso, reduzindo o potencial orgonótico e conseqüentemente a própria sensação de vitalidade do organismo.

Tanto a impulsividade quanto a obsolescência, ao permearem as relações humanas, fragilizam os vínculos e instituem uma espécie de terror ao compromisso. Para a vida pós-moderna fluida e veloz, cada compromisso implica em uma inércia, uma resistência à aceleração, que o coloca na contra-mão da dinâmica dominante. [6] Entretanto, a nossa segurança depende de uma boa rede social, cujas características estruturais são oriundas dos vínculos constituídos. [7] A predominância de vínculos efêmeros torna os indivíduos mais vulneráveis, diminuindo a sua segurança e a sua capacidade orgonótica.

Individuação e pertencimento

Em um trabalho anterior [8] , parti dos conceitos sobre movimento e pulsação de Reich, de diversas referências filosóficas sobre o todo e a individuação, e da interpretação ontológica da física quântica de David Bohm [9] para chegar a uma dinâmica básica do universo [10] , compreendendo uma pulsação entre os processos de individuação e pertencimento.

É uma dinâmica que parte de um estado fusional e por movimentos de discriminação vai constituir uma identidade, que acumula experiências no seu período de existência e volta a se reintegrar ao todo, que por sua vez ganha em complexidade com as experiências acumuladas por seus membros. É uma renovação do todo pela reintegração (pertencimento) da experiência gerada pela individuação (discriminação). [11]

Pela segunda lei da termodinâmica, o universo, como um sistema fechado, tem uma tendência entrópica que o levaria a uma homogeneização. Em contraposição, é a sua tendência complementar, evolutiva, neguentrópica, que possibilitou o surgimento de tanta diversidade a partir de um estado inicial de maior homogeneidade [12] . Essa pulsação entre discriminação e integração, entre individuação e pertencimento, é evolutiva e complexificante e, portanto, constituinte da tendência neguentrópica. [13]

Ao analisarmos as relações entre individuação e pertencimento na sociedade pós-moderna, percebemos que o culto ao individualismo tende a criar uma ambigüidade entre culto do novo e o culto da moda, que se reflete em ilusões de escolhas do novo que são, na verdade, subjugadas pelo que a moda determina [14] . O individualismo é a morte da cidadania [15] ; se no cidadão a individualidade se conecta ativamente a um pertencimento, no individualista o pertencimento se dá de forma passiva e manipulada pelo mercado. A legitimidade do pertencimento é inversamente proporcional ao terror do compromisso. O cidadão consome, mas o indivíduo tende a ser consumido [16] .

Se antes a ciência visava conhecer a Natureza, hoje tende a duvidar dela. Muito do que era considerado natural atualmente é considerado cultural, e essa moda tende a obscurecer o natural sob a alegação de que ele pode assumir diferentes formas conforme a cultura na qual se insere. A perda do referencial do Todo, do pertencimento, a partir da exacerbação do pensamento analítico cartesiano, dificulta a percepção do que é comum nas diferentes formas culturais como uma expressão de uma mesma característica natural [17] .

Exemplo: um problema estrutural da humanidade

Uma questão natural, ainda que uma multiplicidade de manifestações culturais venha a lidar com ela em suas particularidades, é o problema do extenso período de dependência da cria humana. Não só os bebês são incapazes de sobreviver sem assistência [18] , mas esse período de dependência foi estendido com a protelação genética da procriação da fase edípica para a adolescência. Some-se a isso os atributos estritamente culturais, como por exemplo um mercado de trabalho saturado que cada vez mais prolonga esse período de dependência, tanto pelo desemprego quanto pela necessidade de uma alta qualificação.

Reich já falava da importância dos cuidados com a infância para a aquisição de uma personalidade capaz de viver em harmonia social e ambiental [19] . Winnicott vem enfatizar como isso é crítico nos primeiros seis meses de vida, onde a presença constante de uma figura de mãe é vista como crucial [20] . A qualidade de vida das gerações futuras depende de como essa questão da dependência é tratada no presente. Durante milhares de anos, as diferentes culturas deram uma resposta patriarcal para esse problema, uma resposta que, se garantiu a sobrevivência da espécie, o fez a base de um sadismo (pois a dominação é sádica [21] ) que hoje é a maior ameaça a essa própria sobrevivência.

Na resposta patriarcal, os cuidados com a prole ficavam a cargo da mulher, enquanto que os custos envolvidos eram arcados pelo homem e, eventualmente, uma parcela pela sociedade. Na pós-modernidade, a mulher se desloca do espaço privado para o espaço público entrando no mercado de trabalho, o que trouxe uma multiplicidade de soluções para a questão do cuidado infantil (e principalmente dos bebês) que hoje em muito depende dos recursos da família.

O cuidado de parentes (avós, tias, irmãos maiores, vizinhos), babás, creches, o abandono (em casa ou na rua) e o trabalho, criminalidade ou mendicância infantis, estes às vezes tão precoces que precedem a fase edípica, têm sido soluções locais adotadas, mas a humanidade ainda não tem uma resposta sistêmica para esta questão estrutural. Se para a dependência dos idosos foram desenvolvidas soluções como a previdência social ou privada, a questão da dependência do bebê ainda não encontrou dispositivos além de uma licença maternidade insuficiente, tanto na sua duração quanto na sua abrangência. Mesmo para as crianças em fase escolar, a escola em geral está muito mais voltada para a preparação de uma mão de obra competitiva do que para propiciar um desenvolvimento psico-afetivo saudável capaz de resolver conflitos de formas menos sádicas (social e ambientalmente). A falta de cuidados adequados gera um importante círculo vicioso, na medida em que bebês mal cuidados tendem a se tornar adultos maus cuidadores, incapazes de encontrar soluções viáveis para a própria prole ou mesmo para si, quanto mais para essa questão estrutural da espécie.

Se partirmos do princípio que os valores básicos individuais se formam concomitantemente com a personalidade, não podemos ignorar a importância desta questão para a atual crise de valores pós-moderna. O seu não equacionamento de forma sistêmica nos meios acadêmicos e políticos é um fator impeditivo de um comprometimento de esforços em busca de soluções mais viáveis. O modelo pós-moderno de comprometimento mínimo levou os poderes públicos a desinvestirem em educação e saúde, deixando as soluções a cargo da iniciativa privada, ao alcance de uns poucos e geralmente com uma visão limitada; ou a cargo de uma “economia moral” [22] – uma economia fora do mercado que perpassa as relações de solidariedade humana – geralmente com recursos insuficientes para um desfecho satisfatório.

Quando a estrutura patriarcal começa a apresentar fissuras, permitindo a inclusão da mulher no espaço público e do homem no espaço privado, essa questão da dependência da prole fundada numa natureza humana clama por novas soluções a serem propiciadas culturalmente:

  • Quem deverá cuidar do desenvolvimento infantil e do adolescente, desde as necessidades afetivas do bebê até a sua formação enquanto uma mão de obra capaz de contribuir para a sustentabilidade da sociedade, de uma forma menos sádica que a atual?
  • Quem deverá arcar com os custos desse cuidado?

A crise da razão pura

Se foi sobre a razão que a ciência moderna se erigiu, em contraposição à fé que dominava na Idade Média, esta própria ciência inicialmente erigiu uma certeza tão religiosa que não se sustentou face à própria lógica da razão. Essa certeza gerou uma tecnologia que permeia a sociedade determinando as características das nossas redes sociais e dos nossos vínculos, tecnologia essa um tanto cega para as dúvidas da razão que a erigiu.

Já no século XVII, Berkeley concluía que não há nenhum meio justificável de distinguir objetos de impressões sensoriais. Se a ciência pretende compreender o mundo, mas não tem como realmente percebê-lo, ela se vê emaranhada em uma contradição ontológica. [23]

Kant tentou conciliar a reivindicação da Ciência ao conhecimento seguro e legítimo do mundo, com a alegação da Filosofia de que a experiência jamais permitiria tal conhecimento. Ele concluiu que o Homem conhece a realidade objetiva exatamente até onde esta se adapta às estruturas fundamentais da mente. O tempo, o espaço, a substância e a causalidade seriam formas axiomáticas da sensibilidade humana que condicionam qualquer coisa aprendida pelos sentidos. [24]

Com o advento da Teoria da Relatividade e da Mecânica Quântica, as formas axiomáticas kantianas entram em colapso, e a realidade talvez não esteja estruturada de alguma forma que a mente humana possa discernir objetivamente [25] . O próprio mundo retorna para os limites além da nossa possibilidade de cognição, a ponto de Popper concluir que a ciência jamais poderá produzir um conhecimento seguro, nem ao menos provável. [26]

Por outro lado, a tecnologia gerada pela ciência, traz à humanidade a possibilidade não só da autodestruição, mas da destruição de todo o ecossistema planetário. Com a bomba de Hiroshima, a ciência perde de vez a sua neutralidade moral que, aliada à sua verdade absoluta a tornava inquestionável.

Assistimos a uma aceleração gradativa da razão usada para desconstruir, em contraponto com a razão usada para construir. Como Penélope, mais recentemente a razão vai desfazendo à noite o que ela tece de dia. Um processo que, desde Copérnico, vem solapando as maiores certezas humanas.

Se a desconstrução é útil e necessária para limpar o terreno para novas crenças, derrubando preconceitos e possibilitando a alteridade, por outro lado corremos o risco da perda de um referencial que sustente o comportamento social humano. Se nada vale, tudo pode valer.

A desintegração do que é sólido é uma típica característica pós-moderna. Tudo se esfacela numa incrível velocidade, e ao se desintegrar perde a conexão com aquilo ao qual pertencia. Por outro lado, tudo se articula em redes cada vez mais voláteis, e o pertencimento vai se tornando mais virtual e menos orgânico.

A virtualidade desse pertencimento pode estar integrando uma dinâmica onde a importância da sociedade globalizada passa a sobrepujar à dos seres humanos que a compõem, como ocorre entre formigueiros e formigas.

Os formigueiros são estruturas estratificadas complexas, onde cada estrato se constrói a partir da regra básica do seu componente elementar e da história de acasos que o permeia. Essas estruturas em múltiplos níveis de organização desenvolvem uma memória e uma linguagem simbólica própria. Formigueiros distintos reagem cada qual de sua própria maneira na presença de um estímulo externo, eles têm personalidade própria, cada qual dispondo de suas formigas na interação com seu ambiente de formas particulares. [27]

Essa passagem para um comportamento próprio do sistema maior geralmente tem um limiar de ocorrência quando o sistema atinge a magnitude de 1010 (10 bilhões) de membros. Essa é mesma magnitude da atual população da humanidade, que por sua vez possui também uma estrutura social estratificada complexa. Resta saber se a humanidade está atingindo o limiar de uma personalização, e o quanto isto se reflete nas atuais mudanças dos vínculos humanos. Se os seres humanos forem como células do corpo da humanidade, que contato terá ela desenvolvido com este seu corpo e que cuidados terá conosco?

A medida do valor

A medida do valor não é uma questão específica da crise atual, mas certamente é uma questão de fundo, muito mais remota, que influencia as possíveis soluções a serem encontradas.

O problema que se coloca é como medir o valor? O valor de mercado, que precede a própria introdução da moeda como valor de troca, não é uma medida da necessidade humana [28] , mas uma medida que depende não só dessa necessidade (demanda), mas também da oferta (e indiretamente do custo de sua produção).

A sociedade moderna, voltada para a produção, desenvolveu gradualmente uma construção mercadológica de necessidades humanas que absorvessem os seus produtos – os prenúncios de uma sociedade de consumo - tornando ainda mais complexa a questão da aferição dessas necessidades, que se tornaram mais culturais que biológicas.

A produção industrial moderna trazia como retorno, não apenas o lucro para o capital, mas também os bens produzidos para a sociedade e a remuneração da força de trabalho. A questão do descomprometimento pós-moderno propicia uma transformação no capital, que se torna mais independente tanto do trabalho quanto do meio ambiente. Ele fica volátil, desengajado, perito na arte da fuga, invisível e extraterritorial [29] . O capital produtivo em grande parte migra para um capital especulativo [30] e o que ainda é investido na produção repassa os seus custos para a sociedade [31] . Os lucros são globais, mas os custos – humanos, sociais e ambientais - são locais [32] . A miséria humana é um dejeto desta dinâmica que retira as condições de acesso ao bem comum dos mais pobres para produzir a riqueza glamourizada [33] .

Deixando de propiciar um retorno social, tanto em termos de uma remuneração do trabalho quanto em termos de bens produzidos, e repassando os seus custos, o capital especulativo deixa de servir ao homem, que por sua vez passa a servir cada vez mais ao capital [34] .

A moeda, a nossa medida de valor, se refere apenas a um valor de mercado determinado pelo capital. Precisamos desenvolver outras ferramentas para as medidas de valor humano, social e ambiental que possam ser balizadores na solução de uma crise de valores. É verdade que hoje já existem indicadores sociais e ambientais que de uma forma ou outra começam a aferir a nossa qualidade de vida, e que estes indicadores estão ganhando peso político e começando a determinar estratégias de realocação do trabalho humano. Entretanto, a própria estrutura política que toma essas decisões ainda está apoiada grandemente em democracias mais representativas que participativas, extremamente atreladas a uma economia de mercado que determina não só os eleitos como suas principais decisões. Some-se a isso que a economia que permeia os vínculos humanos solidários ainda não é valorada e formalmente “econômica”.

Veios positivos no horizonte

Vivemos numa época permeada pela ambigüidade entre um furor tecnológico e uma dilaceração filosófica, social e humana, que em muito lembra as bromélias, que subitamente colapsam logo após uma esplendorosa floração, mas que simultaneamente lançam brotos que asseguram a sua continuidade.

Se nossa sociedade está vivendo um processo onde a degeneração convive com o vistoso, creio que cabe procurar os brotos regenerativos que daí advém, até mesmo para não os deixarmos definhar. Parece que, em oposição às numerosas dinâmicas desintegradoras que apontamos, é possível discernir, iniciando-se com o Romantismo e desdobrando-se em novos matizes, uma multiplicidade de processos que apontam na direção de uma maior integração em diferentes níveis:

  1. Das nossas distintas capacidades em uma auto-eco-regulação;
  2. Da inclusão do feminino;
  3. Do respeito à diversidade e sua conseqüente integração ao todo;
  4. De uma resolução da dicotomia natureza-cultura;

1. Integração das nossas distintas capacidades

Se a passagem da Idade Média à Idade Moderna substituiu a predominância da fé pela da razão, parece que no atual momento os movimentos que apontam para uma nova construção envolvem a busca de uma prazerosa harmonia das nossas diferentes capacidades mentais, no conceito batesoniano de mente [35] - que comporta não só o psíquico, mas todas as suas relações – corporais, sociais e ambientais; envolvendo portanto, razão, inteligência, sensação, emoção, imaginação, intuição, espiritualidade, vitalidade, ação, sexualidade e relações ambientais (sociais e com a natureza). Em suma, uma integração do próprio fluxo energético de cada pessoa não apenas em uma dinâmica auto-regulatória, mas, considerando que somos sistemas abertos, em dinâmicas auto-eco-regulatórias [36] envolvendo todo o nosso meio.

2. A inclusão do feminino

A quebra da reclusão da mulher ao espaço privado a partir da sua penetração no mercado de trabalho foi-se multiplicando em diferentes formas de participação no espaço público, possibilitando uma crítica ao modelo patriarcal bem como a descoberta de novas formas possíveis de estar no mundo. Formas às quais o feminino nos apresentou como alternativas ao quadro dominante de sadismo, resultante de milênios de patriarcado.

3. O respeito à diversidade e a sua integração no todo

As múltiplas desconstruções pelas quais estamos passando com a perda das distintas formas do absoluto e sua relativização em inúmeras esferas, possibilitou uma reconfiguração do nosso caminhar que não mais toma a direção de uma única verdade possível, calcada numa simplificação idealizada do mundo, mas se multiplica em um leque de destinos trilháveis que se reencontram e voltam a se dividir mais adiante formando uma trama. É uma conjuminação de simplicidades norteantes em uma diversidade de formas de estar no mundo e de percebê-lo, constituintes de um mundo complexo. Cada individuação traça novos caminhos, gera novas riquezas que são incorporadas ao todo, que a cada nova complexificação, possibilita novas originalidades individualizantes. A estrada deixa de ser linear e se torna uma rede viária.

4. A resolução da dicotomia Natureza-Cultura

Ainda que sem acesso a uma percepção fiel do mundo tal como ele é, não deixamos de interagir com ele de nossas formas particulares, e principalmente, não deixamos de fazer parte dele. Como participantes, temos acesso à sensação de pertencimento, de retomada das raízes que nos originaram. A integração natureza-cultura é tão possível em culturas que não se de-generam – que ao se individuarem não perdem o contato com suas origens naturais, mas que participam de um todo dialogicamente – como na integração das raízes e folhas de uma árvore em um único ente. Como as culturas, a própria Natureza vai se recriando e se complexificando em seus desdobramentos evolutivos. Podemos dizer que “A Natureza é a cultura do Universo” [37] .

Questões que se originam na Natureza podem ter uma multiplicidade de manifestações culturais. Essa multiplicidade é constituinte dessa pulsação básica; mas ainda assim a recuperação da questão natural original (ainda que inacessível em sua plenitude) como um norteador integrativo é o que retoma a pulsação e sustenta em médio prazo o movimento cultural como generativo e não degenerativo. O termo degenerado para a nossa cultura pós-moderna em sua dinâmica me parece bastante apropriado, tanto por ela ultrapassar pontos de bifurcação na sustentabilidade ambiental quanto por produzir uma crescente multidão de excluídos – o lixo humano citado por Bauman (2001) – mais do que por qualquer fundamentação moral. Essa segregação do lixo humano não é apenas uma exclusão do social, mas também do ambiental (só não exclui os excluídos do lixo ambiental). É um sintoma de uma individuação extrema que perde a sua trama vinculante, rompendo sua pulsação de diferenciação/reintegração em sua continuidade evolutiva.

É importante pontuar que mesmo os movimentos degenerativos pertencem a essa dinâmica pulsional básica, eles apenas o fazem em ciclos mais longos, mais conflituosos e acirrados, onde a reintegração se dá mais por uma descontinuidade, na transcendência de uma desintegração, do que por um contínuo evolucionário. [38]

É este tipo de ciclo que abrange o descontínuo, o que permeia a morte do indivíduo e permite a renovação da espécie [39] ; e o que permeia a extinção da espécie permitindo a renovação da família ou do ramo. Tudo parece indicar que estamos em um desses momentos de decadência/transcendência, o que ainda não sabemos é o tamanho do preço a pagar – se o de uma revolução cultural, se o da extinção da espécie ou se o de um cataclismo no ecossistema terrestre do qual poucas espécies, se alguma, sobreviveriam. É justamente essa indeterminação que valida a importância de nossas escolhas.

Conclusão

Após utilizarmos alguns analisadores para melhor compreender a crise de valores que atravessamos, percebemos que ela se insere em uma crise muito mais ampla, permeando todas as esferas do funcionamento humano. Prenuncia uma transformação radical, transcendente, da forma do ser humano estar no mundo.

Simultaneamente pudemos discernir alguns prenúncios de uma nova organização humana possível, e o que parece comum entre eles é a recuperação da crença e da possibilidade da satisfação humana através de uma dinâmica de reintegração. Dentro de uma pulsação fundante: fusão – discriminação – individuação – reintegração, beiramos o extremo degenerativo da individuação e o movimento necessário neste momento é o de reintegrar, o da busca da inclusão e do pertencimento.

 

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[1] “A produção de mercadorias como um todo substitui hoje ‘o mundo dos objetos duráveis’ pelos ‘produtos perecíveis projetados para a obsolescência imediata’ “. (Bauman, 2003, p.100, citando Alfred Sloan)

 

[2] A flecha do tempo externo é entrópica (desorganizadora); em oposição, a do tempo interno é neguentrópica e propicia à organização dos seres vivos.

 

[3] Reich (1942).

[4] Algo semelhante ao que Freud supôs no seu “Projeto para uma psicologia científica”: a experiência criando uma facilitação nas barreiras de contato entre os neurônios, que gera um trilhamento, um caminho neuronal seguro para a descarga. (Freud, 1895, vol. I, p.407)

[5] “Essa energia livre tende à descarga, e poderá provocar uma desestruturação do psiquismo se não for dominada e conduzida de forma adequada.” (Garcia-Rosa, 1986, p.58)

[6] ‘A arte de romper o relacionamento e dele emergir incólume (…) bate de longe a arte de constituir relacionamentos, pela pura freqüência com que se expressa.’ (Bauman, 2003, p.39) – e também:

 “Mais dolorosamente, ter filhos significa aceitar essa dependência divisora da lealdade por tempo indefinido, aceitando o compromisso amplo e irrevogável, sem uma cláusula adicional ‘até segunda ordem’ - o tipo de obrigação que se choca com a essência da política da vida do líquido mundo moderno e que a maioria das pessoas evita, quase sempre com fervor, em outras manifestações de sua existência.” (Bauman, 2003, p.61)

[7] “A rede pode ser avaliada em termos de suas características estruturais (propriedades da rede em conjunto), das funções dos vínculos (tipo predominante de intercâmbio pessoal característico de vínculos específicos e da soma ou combinação do conjunto de vínculos) e dos atributos de cada vínculo (propriedades específicas da relação).” (Sluzki, 1997, p. 45)

[8] Oliveira,J.G., 2000.

[9] Bohm, 1992.

[10] “Vimos como as partículas do universo estão permanentemente se discriminando e se fundindo no todo, pulsando entre uma ordem explicada e uma ordem implicada. Do ponto de vista da informação, cada vez que uma individualidade qualquer se discrimina de um todo gerando uma existência, ela cria acontecimentos irreversíveis que geram história ao longo dessa trajetória; a cada fusão de volta ao todo, a informação dessa história é repassada ao holomovimento. Este se enriquece e poderá se projetar em novas individualidades mais complexas nas próximas explicitações. Este é o mecanismo básico de evolução de um universo, que permanentemente se constrói em uma complexidade evolutiva. É uma dinâmica de pulsação entre a discriminação e a fusão, onde os dois processos se integram e complementam.” (Oliveira,J.G., 2000, p.44)

[11] “Agora, no Campo da Complexidade, parte e todo não possuem somente uma relação inclusiva, do tipo a parte está contida no todo. A parte passa a ser um agente pelo qual o todo se modifica. Cada nível de um sistema é ‘simples’ em relação ao nível situado posteriormente, porém complexo em relação ao anterior.” (Oliveira,L.A.,1999, p.4)

[12] Essa é uma narrativa distinta do conceito da física mecanicista que remete o destino do aumento de entropia do universo à expansão do espaço-tempo, mas é uma narrativa muito mais inteligível e operacional em termos mais coloquiais.

[13] Quer nos termos de Reich, onde o Todo maior se remete ao oceano de energia cósmica orgonótica, quer nos termos de Bohm, onde esse Todo se remete ao holomovimento, as dinâmicas entre o Mundo e o Todo são pulsionais, em movimentos de discriminação (ligação à matéria/explicitação) e integração (liberação da energia ligada/implicitação). (Oliveira, J.G., 2000)

[14] “A identidade – ‘única’ e ‘individual’ – só pode ser gravada na substância que todo o mundo compra e que só pode ser encontrada quando se compra.” (Bauman, 2000, p.99).

[15] Alexis de Tocqueville, citado por Bauman (Bauman, 2000, p.45).

[16] “A vida na telinha diminui e tira o charme da vida vivida: é a vida vivida que parece irreal enquanto não for remodelada na forma de imagens que possam aparecer na tela.” (Bauman, 2000, p.99)

[17] “Sua [do mecanicista] arrogância o transforma num obstáculo conceitual no campo de pesquisa natural (…) tal arrogância ignorante também se torna um obstáculo para o desenvolvimento social, seja ele qual for.” (Reich, 2003, p.106)

[18] “O recém-nascido humano é um prematuro (…) o volume da cabeça impõe um limite ao prolongamento da gestação, de modo que a expulsão continue possível.” (Bourguignon, 1990, p.177) – e também:

“A situação do homem é paradoxal. Por um lado, sua cria, prematura, permanece imatura mais tempo que qualquer outro animal; por outro, naqueles tempos remotos, a caça, a coleta e as migrações lhe impunham longos deslocamentos e freqüentes mudanças de habitat. (…) A mulher foi portanto obrigada a carregar o filho por longas distâncias e durante vários anos.  (…) A mulher, além do mais, é desprovida de pelagem a que o filhote possa se agarrar. (…) Assim durante 99% do tempo da hominização, a mulher e seu filho mantiveram uma relação única no mundo animal, que não deixou de exercer sobre eles fortes pressões, cujos efeitos positivos para a criança são indiscutíveis.” (Bourguignon, 1990, p.182-183)

[19] Reich, 1950.

[20] Winnicott, 1990.

[21] “a) O sadismo consiste no exercício da violência ou poder sobre qualquer outra pessoa ou objeto.” (Reich, 1989, p.212 – nota de rodapé 5).

[22] “O que está mais visivelmente ausente no cálculo econômico dos teóricos, e figura no topo da lista dos alvos da guerra comercial segundo os praticantes do mercado, é a enorme área que A.H. Halsey denominou ‘economia moral’ - o compartilhamento familiar de bens e serviços, a ajuda entre vizinhos, a cooperação entre amigos: todos os motivos, impulsos e atos com que se costuram vínculos e compromissos duradouros entre seres humanos.” (Bauman, 2003, p.89)

“É graças à válvula de segurança da ‘economia moral’ que as tensões geradas pela economia de mercado não chegam a assumir proporções explosivas.” (Bauman, 2003, p.90)

[23] Tarnas, 1991, p.360.

[24] Tarnas, 1991, p.366.

[25] Tarnas, 1991, p.385.

[26] Tarnas, 1991, p.386.

[27] Citado por Oliveira, L.A. – 2a aula do curso “Prigogine e a Ciência da Complexidade”, 1999.

[28] “(…) quanto menos um pensamento puder ser justificado em termos de ganhos e usos tangíveis ou das etiquetas de preço afixadas a ele no supermercado ou na bolsa de valores, tanto maior o seu valor humanizante.” (Bauman, 2000, p.52)

 

[29] “… o efeito geral da nova mobilidade é que quase nunca surge para o capital e as finanças a necessidade de dobrar o inflexível, de afastar os obstáculos, de superar ou aliviar a resistência; e, quando surge, pode muito bem ser descartada em favor de uma opção mais suave. O capital pode mudar para lugares mais pacíficos se o compromisso com a ‘alteridade’ exigir uma aplicação dispendiosa da força ou negociações cansativas, Não há necessidade de se comprometer, basta evitar”.(Bauman, 1999, p.18)

[30] “De acordo com os cálculos de René Passat, as transações financeiras intercambiais puramente especulativas alcançam um volume diário de US$1,3 bilhão  - cinqüenta vezes mais que o volume de trocas comerciais e quase o mesmo que a soma das reservas de todos os ‘bancos centrais’ do mundo, que é de US$1,5 bilhão. ‘Nenhum estado’, conclui  Passat, ‘pode portanto resistir por mais de alguns dias às pressões especulativas dos ‘mercados’”. (Bauman, 1999, p.74)

 

 

[31] “A nossa é, como resultado, uma versão individualizada e privatizada da modernidade, e o peso da trama dos padrões e a responsabilidade pelo fracasso caem principalmente sobre os ombros dos indivíduos.” (Bauman, 2000, p.14)

[32] “Acrescentemos que toda associação das horrendas imagens da fome apresentadas na mídia com a destruição do trabalho e dos postos de trabalho (isto é, com as causas globais da pobreza local) é cuidadosamente evitada. (…) As riquezas são globais, a miséria é local – mas não há ligação causal entre elas, pelo menos não no espetáculo dos alimentados e dos que alimentam.” (Bauman, 1999, p.82).

[33] “(...) os $50 bilhões de ajuda humanitária do Norte para o Sul é apenas um décimo do $500 bilhões que são sugados de outra direção através de parcelas de pagamentos e outros mecanismos injustas da economia global imposta pelo Banco Central e pelo FMI.” [Shiva]

[34] É cada vez mais o lucro, e não a necessidade humana ou social, que determina o trabalho a ser realizado pelo homem: “O capitalismo não entregou os bens às pessoas; as pessoas foram crescentemente entregues aos bens, o que quer dizer que o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de tal forma que elas se agrupam aproximadamente ... com as mercadorias, experiências e sensações ... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas.” (Jeremy Seabrook, citado por Bauman, 2000, p.100)

 

[35] Bateson, 1979.

[36] Morin, Kern, 1995.

[37] Oliveira, J.G., 1999, p.48.

[38] Capra, 1988.

[39] Capra, 1988, p.276-277.

 

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